Máquinas de troca de seringas nas prisões
Drogas em geral, Geral, Prevenção, Saúde, Toxicodependência Abril 27th, 2008
O Plano de Acção contra as Drogas e Toxicodependências foi aprovado hoje em Conselho de Ministros, em simultâneo com o Plano Nacional contra a Droga e as Toxicodependências.
Entre as medidas contra as toxicodependências aprovadas está prevista a colocação de máquinas para a troca de seringas usadas por material novo nas prisões e a definição de tempos de espera clinicamente aceitáveis para entrada em programas de tratamento.
No campo da redução de risco, o Plano de Acção, a que a Agência Lusa teve acesso, prevê a identificação de locais prioritários para a instalação de salas de injecção assistida (também conhecidas por ‘salas de chuto’), que deverão ser criadas até 2008, dando cumprimento a legislação de 2001.
É também avançada a intenção de criar um sistema de auditoria técnico-financeira, “interna e externa”, aos programas apoiados pelo Instituto da Droga e da Toxicodependência.
O plano de acção contra a Droga e Toxicodependências prevê também a realização de estudos sobre o consumo de substâncias ilícitas, nomeadamente entre os estudantes do ensino superior e a população militar.
Relativamente ao tratamento, é proposta a definição técnica e consensual de tempos de espera clinicamente aceitáveis para admissões, consultas e programas de tratamento das toxicodependências, o que deverá ser concretizado até ao final do ano.
A reinserção dos toxicodependentes é também abordada pelo documento, que propõe, entre várias medidas, a criação de uma bolsa de empregadores, “de forma a promover a integração de indivíduos no mercado de trabalho” e de um programa plurianual para financiar projectos nesta área.
As acções de luta contra a droga estão igualmente contempladas no Plano de Acção, pretendendo-se “consolidar e reforçar as estruturas de prevenção e investigação do tráfico internacional de estupefacientes instaladas nos aeroportos nacionais”.
O documento propõe ainda a criação de uma base de dados com “informação detalhada” sobre os projectos desenvolvidos pelos vários serviços e ministérios e, como forma de “fortalecer a participação de Portugal” nos encontros internacionais sobre o tema, aponta-se a organização de uma conferência internacional sobre drogas no âmbito da presidência portuguesa da União Europeia.
Fonte: JN
Consumo desce na escola
Drogas em geral, Geral, Prevenção, Saúde, Sociedade, Toxicodependência Abril 27th, 2008
Heroína continua a manchar os números da droga.
O consumo de drogas está a diminuir entre os mais jovens, apesar do aumento registado relativamente à população em geral. Um aumento que o Instituto da Droga e da Toxicodependência (IDT) atribui a um efeito estatístico que acaba por cobrir a tendência de estabilização do fenómeno em Portugal.
Estas conclusões derivam do Inquérito em Meio Escolar 2006 e do Inquérito Nacional ao Consumo de Substâncias Psicoactivas na População Portuguesa 2007, ontem apresentado em Évora pelo presidente do IDT, João Goulão, e pelo secretário de Estado da Saúde Manuel Pizarro.
Comparando com os dados do último inquérito nacional, em 2001, a percentagem de pessoas que já consumiu droga pelo menos uma vez ao longo da vida subiu de 7,8% para 11,7%. Isto porque aqueles que, em 2001, tinham mais de 58 anos e revelavam um consumo zero – o que fazia descer a média de consumo – saíram do âmbito do inquérito. Trata-se de uma geração que, na sua juventude, não teve acesso a uma cultura de consumo de drogas. Em contrapartida, os que na altura tinham entre nove e 14 anos “e já correspondem a uma geração com mais probabilidade de acesso” a essa cultura entraram para a amostra e fizeram subir a média.
Estes números não se reflectem, contudo, nos consumos regulares e recentes, esses em estabilização para quase todas as substâncias, tanto na escola como na população em geral.
No entanto, os inquéritos revelam uma diminuição do consumo entre os mais novos em meio escolar, a prevalência (pelo menos um consumo ao longo da vida) desceu de 14% para 11% no 3º ciclo do básico e de 28% para 22% no secundário. Apenas subiu a experiência (mas não o consumo regular) com inalantes/solventes (cola e gasolina), provavelmente por serem “de fácil acesso”, analisa João Goulão. No que toca à população em geral, “há um decréscimo da prevalência do consumo de droga entre os 15 e os 19 anos”, contra um aumento “relevante” entre 20 e 24 anos – o tal grupo que junta os que eram mais novos em 2001.
São números que, para o IDT, apontam uma tendência que, a confirmar-se nos próximos anos, “significará que 2000-2001 pode ter sido o ponto de viragem na evolução do fenómeno do consumo de drogas, por corresponder à geração de jovens (então no grupo etário dos 15-24 anos e actualmente no grupo dos 20-34 anos) onde, até agora, foram encontradas as maiores percentagens de consumidores”.
Avaliando os consumos recentes ou regulares (últimos 12 meses e últimos 30 dias), são assumidos por 2,5% da população, exactamente como aconteceu em 2001. Subiu, contudo, o consumo regular da cocaína (0,1% para 0,3%) e da heroína (0,1% para 0,2%).
Portugal mantém-se ainda assim, nos valores de consumo mais baixos da Europa. Já a prevalência do uso de heroína em Portugal (que subiu de 0,7% para 1,1% da população assumindo que a experimentou pelo menos uma vez) continua a ser das mais elevadas na Europa. Apesar de reconhecer um padrão de consumo “exagerado”, Manuel Pizarro fez questão de desmontar o dado a melhoria do tratamento dos consumidores desta droga evitou infecções e mortes prematuras, uma sobrevivência que “aumenta o índice de prevalência”.
A cannabis continua à frente das substâncias consumidas – o seu uso pelo menos uma vez ao longo da vida subiu de 7,6% para 11,7% na população em geral (numa amostra de 15 mil inquiridos); no entanto, o consumo regular manteve-se nos 2,4% dos inquiridos.
* Com agência Lusa
Doenças psicológicas são influenciadas pela cultura e a sociedade
Drogas em geral, Geral, Prevenção, Saúde, Sociedade, Toxicodependência Abril 17th, 2008
Um número considerável de doenças de foro orgânico são influenciadas pelo meio e pelo estilo de vida. É o caso das patologias cardiovasculares. Da mesma maneira, muitos sofrimentos psicológicos estão relacionados com a sociedade, a cultura e a própria época histórica.
Sabe-se, por exemplo, que a depressão é sobretudo uma doença das sociedades industrializadas. Mesmo quando ela ocorre em sociedades mais tradicionais e afastadas dos grandes centros os sintomas apresentam-se diferentes, com manifestações mais físicas do que emocionais.
O mesmo se passa com a vulgar ansiedade. Enquanto que nos países industrializados as suas manifestações são mais psíquicas e intelectuais, nas regiões menos desenvolvidas e rurais os sintomas são de natureza mais somática (física) e comportamental.
Acontece que várias perturbações psicológicas que tanto afectam os cidadãos do chamado “primeiro mundo” – fortemente industrializado, urbanizado e competitivo – são praticamente desconhecidas entre os povos que habitam regiões subdesenvolvidas, onde a agricultura e a pastorícia constituem ainda as principais actividades económicas. A anorexia nervosa, o transtorno obsessivo-compulsivo e a doença bipolar (doença de tipo depressivo) estão entre as perturbações mentais praticamente desconhecidas das sociedades tradicionais.
A influência da cultura
A manifestação e o significado de muitas perturbações de índole psicológica diferem de cultura para cultura. A explicação reside no facto das chamadas “experiências de vida” – que variam não apenas de pessoa para pessoa mas também de sociedade para sociedade – serem fortemente influenciadas pela época histórica, a religião, as crenças, o contexto sócio-económico e o estilo de vida.
Entre outros factores a serem levados em conta está o meio familiar. Nas sociedades ocidentais predomina a família nuclear, com poucos filhos, uma separação nítida entre a vida privada e a vida pública e um menor peso da religião e da tradição. Desde muito novos, os habitantes dos grandes centros adoptam estilos de vida marcados pela competição, a conquista do sucesso e a posse de bens materiais.
Já as sociedades rurais estão imersas em tradições milenares onde as crenças religiosas têm um papel muito forte influenciando não apenas as decisões pessoais como as de natureza comunitária e política. As famílias são extensas, a escolaridade é baixa e os sentimentos de competitividade e de conquista de sucesso praticamente não existem.
Um exemplo muito interessante do papel que o meio e a cultura desempenham na forma como as doenças psicológicas se exprimem é o da esquizofrenia, uma perturbação mental que no Ocidente penaliza cerca de 1% da população. A esquizofrenia manifesta-se, entre muitos outros sintomas, através de alucinações, embotamento afectivo e ideias delirantes. Todavia, há geralmente diferenças de padrão conforme ela ocorra num indivíduo de uma cidade industrializada ou num habitante das sociedades tradicionais. Por exemplo, nos doentes esquizofrénicos das sociedade rurais os temas mais correntes das ideias delirantes são anomalias corporais e visões de antepassados e “espíritos”.
Muitas outras manifestações patológicas, associadas a enfermidades mentais, exprimem-se de forma distinta de cultura para cultura. È o caso de uma psicose paranóide típica dos índios Algonkians do Canadá que se manifesta através da crença e de medo intenso de se ser transformado em canibal devido a um espírito malígno mítico chamado “windigo” que se apodera do doente.
Outra manifestação patológica, tipicamente masculina, é a chamada “koro” que é frequente em muitas regiões do sudeste asiático. O “koro” é desencadeado pelo medo de que o pénis possa encolher, retrair-se para dentro do corpo e causar a morte da vítima. É uma forma tipicamente local de hipocondria.
Noutros casos, parecem misturar-se sintomas de diferentes patologias quando o problema é avaliado sob a perspectiva da medicina ocidental. Isto passa-se, por exemplo, com o que na Malásia é conhecido como “amok”. Consiste numa perturbação grave em que a vítima entra inicialmente num estado de recolhimento e tristeza profunda durante horas ou alguns dias. Segue-se depois uma fase de intensa agitação motora e agressividade que faz o doente correr como um louco destruindo tudo por onde passa, podendo, inclusivamente, matar pessoas. A crise termina quando o doente cai exausto. Geralmente, não se recorda do que lhe aconteceu.
Outras vezes, o imaginário e a crença misturam-se com a realidade. É o que se passa com o “tangolo-mango”, uma perturbação espiritual e psicológica pretensamente criada por feitiçaria e que se manifesta principalmente no nordeste brasileiro nas populações rurais. Expressa-se por um sentimento de indisposição súbita e incurável que pode conduzir à morte da vítima por definhamento gradual. O “tangolo-mango” terá sido levado de África pelos primeiros escravos.
Emigração e problemas de adaptação
No mundo actual, à medida que se esbatem as barreiras culturais entre os povos, as patologias mentais associadas ao meio, à educação e ao estilo de vida tendem a exprimir-se de forma cada vez mais semelhante. Por outro lado, sempre que os habitantes das sociedades rurais se transferem para as cidades e os grandes centros industriais aumenta o número de perturbações devidas à dificuldade de adaptação aos novos estilos e ritmos de vida. O chamado “brain fag”, por exemplo, que se caracteriza por cansaço crónico, dores de cabeça e problemas cognitivos vários (dificuldades de concentração, problemas de memória, etc.) afecta milhões de habitantes da África que habitam os extensos bairros de lata das grandes cidades.
Por sua vez, os habitantes das grandes cidades da Ásia e do Ocidente, enfrentam cada vez mais perturbações de índole psicológica e comportamental devidas ao stress, à fadiga, à competitividade extrema, ao excesso de estimulação, às drogas, à solidão urbana, aos acidentes e a várias doenças degenerativas que podem afectar o cérebro. O estilo de vida complexo e agitado das sociedades industrializadas desafia a estabilidade mental que é condição indispensável de saúde.
Texto: Nelson S. Lima
“Legalizar as drogas é inevitável no futuro”
Doenças, Drogas em geral, Geral, Prevenção, Saúde, Toxicodependência Abril 17th, 2008
A troca de seringas nas prisões é “urgente”, a prevenção não deve ser moralista e a sociedade livre de drogas é uma utopia.
Há dez anos, ‘a droga’ era o inimigo público número um dos portugueses, no discurso político e nas sondagens. Agora quase desapareceu. O que é que se passou?
As estratégias de redução de danos, embora não tenham sido levadas tão longe quanto deviam, vieram diminuir a visibilidade pública e o sentimento de ameaça que a droga constituía para os portugueses. E trouxeram uma maior oferta de tratamento, a diminuição da criminalidade associada à droga. E também as terapêuticas de substituição opiácea, como a metadona.
Faz-lhe confusão que uma pessoa tome metadona toda a vida?
Penso que a todo o momento podemos repensar a terapêutica e a saída. Eventualmente na actual prática essa questão não está tão presente, talvez por inércia.
Tem-se falado muito – Jorge Sampaio já o disse várias vezes – na necessidade de um novo paradigma para este combate, em substituição do paradigma proibicionista. O Parlamento Europeu aprovou um relatório nesse sentido Admitir que não é possível uma “sociedade livre de drogas” e que é preciso saber viver com elas. Que pensa disso?
As estratégias de redução de danos têm a ver com essa visão pragmática tentar minimizar os efeitos nefastos das drogas nos indivíduos e na sociedade. O proibicionismo conduziu a situações muito complicadas. Mesmo quando um consumidor não quer ou não consegue suspender o consumo, continua a merecer investimento.
Há quem defenda que o melhor caminho passa pela legalização das drogas agora ilícitas. Qual é a sua opinião?
Penso que é um caminho que vamos seguir, no futuro. O novo paradigma, se calhar, passa por aí, pela legalização e regulamentação da venda e consumo das drogas. Creio que é inevitável, mas é algo que terá de ser feito em conjunto por vários países. Este é um caminho feito por pequenos passos. A descriminalização, feita por iniciativa do actual primeiro-ministro em 1999, não teria sido possível dez anos antes e depois foi aceite de forma pacífica. Nesta fase, devemos consolidar o que temos.
E quais as suas prioridades?
Penso que é necessário elaborar um plano com horizonte 2012, mas não é necessário inventar a roda. Ela já foi inventada. É preciso cumprir a anterior estratégia [elaborada pelo Governo de Guterres]. Muito ficou por fazer. Desde logo, na prevenção primária. É preciso reformulá-la de modo a torná-la mais realista, mais pró-activa, mais desenvolvida nos meios reais. Outra é sanar as carências a nível do tratamento ainda há pessoas em lista de espera em Sintra, Setúbal… Não temos de construir novos CAT, mas criar respostas mais ligeiras, por exemplo nos centros de saúde, criar equipas móveis, capazes de avançar, por exemplo, para o interior. E temos de rever os planos municipais de combate à toxicodependência, uma das grandes prioridades do Governo anterior, que usam recursos do IDT para actividades que não me parecem ser a nossa vocação.
O anterior Governo afirmou apostar na prevenção, mas deixou cair a educação para a saúde nas escolas…
É preciso apostar nessa área com maior envolvimento dos destinatários. Ensinar os jovens não só a evitar os riscos, mas também a enfrentá-los. Gostava de ver equipas de rua a actuar em meios de diversão nocturna. O que já aconteceu, mas acabou por deixar de se fazer por falta de financiamento.
Defende a disponibilização de testes às ‘pastilhas’, como se faz na Holanda?
Sim, desde que isso seja aproveitado para fazer prevenção, falando acerca da efectiva perigosidade das substâncias (lícitas e ilícitas), informando as pessoas para que possam fazer escolhas, enquanto funciona também como redução de danos, já que pode impedir a toma de pastilhas ‘maradas’… Claro que as equipas que fazem isso têm de ser constituídas por pessoas com características especiais, com capacidade de empatia, sem a atitude de técnicos sapientes nem moralismos.
Em 2002, quando saiu da presidência do Serviço de Prevenção e tratamento da Toxicodependência (SPTT), disse que uma das razões do incumprimento da estratégia era a falta de financiamento. Deveria ter havido 160 milhões de euros para este combate em 2004… Já sabe com quanto conta?
Estou certo que estamos muito longe desse valor, embora não saiba qual o orçamento disponível. Claro que assim não era possível cumprir a estratégia, e isso devia ter sido tido em conta na avaliação que foi levada a cabo pelo Instituto Nacional de Administração. A estratégia apontava para um serviço interministerial junto do primeiro–ministro, com poder para tomar determinadas medidas. Muito disso ficou pelo caminho com a fusão entre o SPTT e o Instituto Português da Droga e da Toxicodependência.
Que criticou na altura, mas a cuja entidade daí resultante vem agora a presidir. É uma ironia.
É. Mas perdeu-se muita energia na fusão, não se pode voltar atrás.
As Comissões de Dissuasão (CDT) foram uma das grandes novidades, aliás estreia mundial, da estratégia. Integrou uma grupo que avaliou o seu desempenho. Qual a sua percepção do funcionamento das CDT?
Penso que foram sobredimensionadas. São estruturas demasiado pesadas, burocráticas. Têm de ser flexibilizadas, diminuindo o peso de dirigentes e dando relevo aos técnicos. É necessário articulá-las mais com o tratamento, com o acompanhamento dos consumidores…
As CDT lidam sobretudo com consumidores de haxixe. O que é que se faz a um consumidor de haxixe?
Para a maioria dos jovens, o haxixe é visto como uma substância sem risco, e isso não é verdade. É preciso informá-los disso.
Que riscos são esses?
Embora não esteja estabelecido um nexo de causalidade entre a esquizofrenia, surtos psicóticos e o consumo da substância, há uma incidência mais elevada entre os consumidores. Existe o síndroma amotivacional nos utilizadores mais frequentes, e há um risco maior para os pulmões que o causado pelo tabaco. Um charro equivale a um maço de tabaco.
Como é que explica a um jovem que essa substância é proibida e não deve ser consumida porque tem estes e estes riscos quando o álcool e o tabaco não são proibidos e têm riscos tão grandes ou maiores?
Concordo que é difícil explicar. Todas as sociedades têm as suas drogas. A nossa droga tradicional é o álcool, e também o tabaco. Mas se calhar temos de pensar que o haxixe também já está incorporado na nossa cultura, é corrente há 30 anos. Esses miúdos se calhar viram os pais, os avós, a usá-lo. E isto tem de ser incorporado no discurso. Não significa que tenhamos de nivelar por baixo. Temos é de nos bater por diminuir os consumos de tabaco, de álcool e haxixe. Criar estilos de vida saudáveis.
Os centros privados de combate ao tabagismo têm muita procura. Não deveria o Estado, que arrecada impostos com esse consumo, actuar nessa área
Sim. Mas não através do IDT, porque vejo no hábito tabágico uma dependência e não uma toxicodependência.
O anterior ministro falou de incluir o combate ao alcoolismo nas atribuições do IDT. Os Centros de Atendimento a Toxicodependentes vão passar a atender alcoólicos?
Não concordo com a atribuição de competências ao IDT sobre o alcoolismo tout court. Na prática, os CAT já trabalham nessa área, porque muitos toxicodependentes são policonsumidores. Teremos dificuldade em acolher todos os alcoólicos.
Aloca-se muito mais dinheiro ao combate às drogas ilícitas que ao álcool, cuja dependência afecta muito mais gente – as estimativas apontam para um milhão. Parece-lhe justo?
Alguma da nossa estrutura pode ser envolvida também nesse combate. Pode haver alguma afectação de recursos. A rede de comunidades terapêuticas convencionadas, neste momento tida como excessiva em relação às necessidades, pode reconverter-se para o combate ao alcoolismo. E não só temos uma comunidade de dependentes de heroína cada vez mais velhos e mais doentes, alguns ficam encalhados no sistema, pendurados na assistência, sem alternativa de vida. É preciso encontrar uma resposta para este tipo de pessoas. E acho que algumas dessas comunidades terapêuticas podem transformar-se em unidades residenciais de longa duração, com cuidados de saúde…
Asilos?
É uma palavra um pouco forte. Mas é preciso encontrar uma solução para esta faixa muito pequena de pessoas.
Fonte: DN
Toxicodependência e trabalho
Drogas em geral, Geral, Saúde Abril 17th, 2008
A toxicodependência é um dos problemas sociais mais graves do nosso tempo. Ninguém pode alhear-se desta realidade. Se aceitarmos que a toxicodependência é um problema social, então temos que aceitar também que o problema é de todos, ou seja, é de cada um – uma responsabilidade de todos e de cada um. Esta ligação entre o social e o individual, responsabilizando ao mesmo tempo (todas) as pessoas e as organizações construídas pelas pessoas, é a marca comum de todos os grandes problemas do nosso tempo: toxicodependência, SIDA e outros problemas de saúde, guerras, fome, justiça social, participação e cidadania, exclusão, racismo, sustentação do meio ambiente, segurança nas cidades, consumismo, etc… São problemas que resultam da forma como a sociedade está organizada (e somos nós que a organizamos).
Responsabilidade. O que significa sermos todos responsáveis? Significa que todos temos “culpa”?… Pensar em “culpas” e “culpados” é olhar para o passado. A ideia de responsabilidade aponta para o futuro, para a gestão do problema. É aí que todos temos um papel a desempenhar. Todos temos que assumir que a nossa colaboração é fundamental. E a colaboração de cada um começa na condução da sua própria vida e passa por um envolvimento responsável na vida da comunidade que o envolve. Ser responsável é respeitar a vida plena, é cultivar uma atitude ética face à nossa vida e face à vida dos outros.
Situado o problema da toxicodependência neste ponto de vista, justifica-se a relação entre toxicodependência e trabalho. A sociedade onde vivemos somos nós, indivíduos, mais as organizações que construímos. E as organizações relacionadas com o trabalho são muito importantes na sociedade em que vivemos. Essas organizações também têm responsabilidades. Compreender e gerir estes problemas passa obrigatoriamente por estas organizações e pela forma como as pessoas participam e se relacionam nelas e com elas (e vice-versa).
Mas vamos devagar. Afinal do que estamos a falar? Drogas? Toxicodependência?… Todos temos uma ideia do que se trata. Mas o assunto continua a ser polémico. Há muitas ideias controversas em cima da mesa e o assunto é de paixões (está na moda!). Para nos entendermos, seguem-se algumas perguntas e respostas de algibeira. Não esperamos que concordem com o que escrevemos. Esperamos que pensem no que escrevemos.
O que são as drogas?
Designam-se genericamente por “droga” todas as substâncias que podem modificar uma ou mais funções de um organismo vivo em que são introduzidos. As drogas que estão relacionadas com a toxicodependência são apenas uma parte do conjunto das drogas: São as drogas psicoactivas, que se caracterizam pelo poder de modificar as funções do Sistemas Nervoso Central (SNC).
O SNC é muito importante. Tem uma grande influência na forma como entendemos o mundo que nos rodeia e na maneira como lidamos com esse mundo. A consciência, a orientação, as diferentes formas de percepção, o pensamento e a compreensão, a memória, a atenção, o tempo de reacção e a qualidade das decisões… podem ser afectadas por estas substâncias. O que somos, a forma como nos vemos e de como estamos com os outros também. Os sentimentos, os interesses, os valores. A relação com pais, com filhos, com cônjuges, com namorados e namoradas. A relação com a família, com a escola, com o trabalho, com os amigos. Tudo pode ser profundamente afectado pelo consumo destas drogas. O conceito nuclear desta influência que as drogas podem ter na vida de quem as consome é a dependência.
O que é a dependência?
Há vários tipos de drogas psicoactivas. Podem distinguir-se pela sua origem geográfica, pela forma como são produzidas, pelos seus efeitos, pelo perigo associado ao seu consumo, pela forma como são vistas em diferentes culturas e sistemas jurídicos, etc..
Mas mais importante que as diferenças é o que estas substâncias têm em comum. Uma característica fundamental comum a todas as drogas psicoactivas é a dependência que podem provocar a quem as consome.
A dependência remete sempre para a relacão de uma pessoa com a substância. Todas as drogas têm aspectos positivos e negativos e podem ser melhor ou pior utilizadas pelas pessoas. A dependência é uma utilização inadequada de uma droga por quem a consome. Colocando desta forma a questão, fica no ar uma ideia: a pessoa dependente tende a ser vista como responsável pela sua dependência. É muito importante discutir esta ideia, que retomaremos na questão sobre a toxicodependência como doença. Mas o que é afinal a dependência?
Existe a dependência física, que corresponde a uma adaptação inadequada do organismo à droga consumada regularmente. Quando esta falta, o organismo ressente-se de uma forma que provoca grande sofrimento no consumidor. Como é sabido, nem todas as drogas provocam este tipo de dependência.
Existe outra forma de dependência que pode ser provocado por todas as drogas psicoactivas e que é muito mais grave: é a dependência psicológica. Trata-se de um processo em que a droga toma progressivamente conta da vida do seu consumidor. Associa-se geralmente a uma ilusão de poder e de controlo dos problemas e a uma negação da dependência. O consumidor não se apercebe do que lhe está a acontecer e não aceita os avisos dos amigos e familiares. Chega a um ponto em que a droga é a única razão de ser e de existir dessa pessoa. A família, a escola, o trabalho, os amigos, tudo deixa de interessar. Neste estado, a recuperação é extremamente difícil pois retirar a droga à pessoa equivale a retirar-lhe a razão de viver. É o vazio absoluto, que se torna insuportável para qualquer ser humano.
Quando falamos de dependência não podemos esquecer a codependência. Trata-se da dependência que algumas pessoas desenvolvem relativamente a um toxicodependente. Amigos, colegas, namorado/a, familiares podem envolver-se de tal forma no problema de um toxicodependente que ficam também “agarrados”. Deixam de viver as suas vidas para viver em função do problema do seu ente querido. Esta reacção é compreensível em pessoas que se preocupam com os outros, em especial quando gostam muito deles. Mas acaba por prejudicar a evolução do problema do toxicodependente e, além disso, os co-dependentes tornam-se também pessoas com problemas que precisam de ajuda para recuperar.
Os toxicodependentes são doentes?
A toxicodependência não é entendida como uma doença comum pela generalidade das pessoas. Muitos negam mesmo que se trate de um problema de saúde. Esta ambiguidade relativa à toxicodependência é semelhante à ambiguidade com que a sociedade sempre encarou os problemas mentais em geral. A principal razão destas dúvidas resulta da impressão de que as pessoas com problemas mentais são fracas e paradoxalmente, a impressão que essas pessoas são responsáveis pelos seus problemas (estão/são assim porque querem).
Se vivemos todos no mesmo mundo, sujeitos às mesmas pressões e dificuldades, porque apenas uma minoria se torna mentalmente perturbado? A resposta evidente é simples: porque nós, os equilibrados, somos fortes e eles, os desiquilibrados, são fracos. Mas as realidades humanas escapam sempre às respostas simples e evidentes. Temos que admitir que não somos fortalezas inexpugnáveis e que estes problemas também nos poderão acontecer a nós. Temos que admitir que não há “nós” e “eles”, mas sim seres humanos cuja essência é a conjugação de forças e de fraquezas. E a toxicodependência é um bom exemplo para reflectirmos sobre esta realidade.
Os toxicodependentes são parcialmente responsáveis pelo caminho que percorrem entre a vida sem droga e a vida dependente de droga. São também responsáveis por dar os passos fundamentais para a sua recuperação. Mas quando estão dependentes estão doentes porque não controlam essa situação e a sua vida. Precisam de ajuda, ou seja, precisam de se tratar. E é assim com a maioria das doenças do fim do século, cada vez mais o resultado do que somos e fazemos, cada vez mais marcadas pela dimensão da saúde mental/doença mental. Somos parcialmente responsáveis pela nossa saúde, um recurso que temos de cultivar no dia a dia durante toda a vida. Somos cada vez mais responsáveis pela qualidade da nossa vida mesmo quando estamos doentes – notar que as doenças do fim do século tendem a ser crónicas e de evolução prolongada (SIDA, cancro, problemas cardiovasculares, etc.).
Porquê a toxicodependência?
Prevalece a opinião que a droga é a principal causa dos nossos males. Mas é ao contrário., Os nossos males é que são a causa da importância que a droga ganhou nas nossas vidas. Quais são esses males?… Pergunta difícil, porque são tantos, todos tão enleados uns nos outros, que é dificil encontar o fio à meada. Em seguida referimos alguns desses males, mas não se esqueçam que a explicação não depende de um ou de alguns. Depende da combinação de todos.
O Ser. A toxicodependência é um problema do Ser, mas as explicações devem ser procuradas nas circunstâncias do Ser. As drogas, as pessoas com problemas, as suas vidas e as suas famílias, as instituições sociais como a Família, a Escola, ou Trabalho e a Rua. As cidades e a sociedade. A televisão e as outras formas de ilusão. A política e a economia.
As drogas. Os efeitos das drogas nas pessoas é uma vertente da explicação do problema. As drogas produzem uma ilusão de bem estar e de poder. Esta ilusão é artificial, mas as pessoas habituam-se a “ser” assim e só o conseguem com drogas.
A dependência e a negação, de que falámos antes, são também razões fortes para explicar esta doença.
As pessoas. As pessoas que se tornam dependentes são outra perspectiva necessária para compreender o problema. Histórias de vida e formas de ser diferentes: por exemplo, uma ideia pobre de si mesmo, uma expectativa inadequada sobre a vida, uma sede e viver e de vencer depressa, o medo exagerado do futuro, o sofrimento de Ser que se torna insuportável para alguns…
Famíla, Escola e Rua. Família desorientada, desagregada pelo individualismo dos nossos dias. Escola massificadora, que oferece pouco e não deixa procurar mais. Família e Escola que não atinam na missão primordial que é educar, que é formar o Ser. A Família perdida que se demite das suas responsabilidades. A Escola que nunca poderá substituir a Família. E para os jovens pouco espaço sobra para encontrar o sentido das suas vidas, para encontrar o Ser. Falta o rumo e o Ser, e assim andar nas “Ruas” é muito perigoso.
Trabalho e Família. Muitos perdem-se antes de chegar a altura de ter um trabalho. Mas outra das guerras do nosso tempo é entre a Família e Trabalho. O Trabalho desvaloriza a Família. Somos o que fazemos, somos o nosso trabalho. Somos no presente e esquecemos os nossos filhos que ainda não são nada. Crescer na Família é essencial ao Ser. É aí que se forma a raiz do Ser. Crescer mais, na Escola, na Rua e no Trabalho só é possível a partir dessa raiz. Equilibrar a Família e o Trabalho é um dos desafios que o nosso tempo coloca a cada um para continuarmos todos a ser (antes já falámos da responsabilidade de cada um, lembram-se?).
Cidade. Massa enorme, disforme, de pessoas sem identidade e sem Ser. A droga é a expressão máxima da vida das cidades, da vida sem Ser. É a massa da cidade que está a matar o respeito que o ser humano tinha pelo Ser.
Sociedade. Individualismo e materialismo exacerbado. Tudo tende para o coisificado, para o não-Ser. O Ser (humano) isolado não é Ser, é coisa entre coisas. O Ser (humano) constroi-se e cultiva-se na relação com outros Seres. É do respeito pelo outro que nasce o respeito por nós próprios e o sentido de uma existência digna e responsável.
Televisão. A ilusão. Como a droga. A vida fora de nós, tão depressa que não nos dá tempo para sentir, para pensar. Não nos dá tempo para Ser, para sermos nós próprios.
Política e Economia. A droga é um problema social e global, ou seja, é um problema político. Cabe aos políticos a visão. Cabe-lhes definir a estratégia e promover a mobilização da tal responsabilidade de todos e de cada um. Infelizmente costumam gastar o seu tempo com coisas mais urgentes (mas menos importantes). Quanto à economia, todos sabemos que a droga é um dos maiores negócios do mundo. Há países economicamente dependentes. Depois os tentáculos do polvo chegam a todo o lado. Não podemos dizer que a política e a economia criaram sozinhas este problema. Podemos dizer que contribuíram para este problema nascer e crescer. Podemos dizer que a sua contribuição para gerir este problema é indispensável.
Quais são as principais drogas?
O álcool continua a ser a droga mais consumida e a que produz mais problemas para o conjunto da sociedade. Estima-se que 10% da população portuguesa (1 milhão de pessoas) tenha problemas relacionados com consumo de álcool. Problemas de saúde graves, violência doméstica, acidentes de viação e laborais, custos de protecção social e de serviços de saúde são exemplos das consequências do consumo de álcool.
As drogas ilegais são outro tipo de problema. O haxixe é a droga ilegal mais consumada, mas a que provoca mais problemas é a heroína. Há também a cocaína e as drogas similares. Estima-se que 50.000 a 150.000 portugueses estão dependentes de drogas ilegais. As principais consequências deste problema são vidas e famílias desfeitas. A criminalidade urbana é outro problema grave associado ao consumo de drogas ilegais. A droga é, directa ou indirectamente, a causa da prisão de mais de metade da população prisional portuguesa. Os custos de saúde, sociais e criminais do consumo de drogas são incalculáveis. A grande corrupção, as máfias e o terrorismo, que se sustentam com a produção e o tráfico de drogas ilegais, são um problema ainda mais sério que pode fazer ruir pela base toda a nossa sociedade. Há estados completamente enfiados, mas o pior são as ameaças à justiça e à liberdade, princípios fundamentais dos sistemas democráticos.
Os psicofármacos consumidos sem controlo médico é um problema menos conhecido mas cuja gravidade tem vindo a aumentar. Os toxicodependentes usam muitas vezes os “comprimidos” como alternativa às outras drogas. Mas os tranquilizantes e anti-depressivos consumidos diariamente pelo comum dos cidadãos provocam muitas dependências ocultas em todas as idades e estratos sociais. Pessoas que vivem de forma limitada sem darem por isso, permanentemente anastesiadas/ alienadas pela droga.
Que respostas para controlar este problema?
Não há respostas certas e definitivas. Não há soluções. Temos que admitir que este problema não pode ser resolvido. Pode é ser gerido. A sua gestão depende de todos nós. Temos de nos responsabilizar, por nós e pelos outros. Pela nossa saúde e bem estar e pelo bem estar dos outros. Tal como pelo nosso meio. A sociedade e o meio que temos são, em grande parte, o que nós fazemos. Temos que nos preparar, que nos educar. Temos a responsabilidade comum de fazer o melhor possível, por nós e pelos que virão.
Trabalho e toxicodependência
A toxicodependência pode prejudicar o trabalho (absentismo, acidentes, baixa de produtividade, confiituosidade, imagem … ). O mundo do trabalho pode contribuir para a toxicodependência. Trabalho pobre, trabalho rico, inadequação do trabalho, ausência de trabalho, má gestão do trabalho, stress. O trabalho tem riscos para a saúde física e mental. Por estas duas razões, e por causa da tal responsabilidade de que tanto falámos, as organizações de trabalho e as pessoas que aí estão devem fazer qualquer coisa. Dever … e querer. Dever ético. Querer, porque sabemos que poder não chega. E porque querer é poder. Por nós próprios, pelos nossos trabalhos e pelos nossos filhos, devemos todos fazer qualquer coisa.
A maioria das pessoas com problemas de consumo de álcool e drogas trabalha. Alguns trabalham de forma “especial”, mas trabalham. Por vezes a sua família está desorganizada e os “amigos” vivem também no mundo da droga. O trabalho acaba por ser a única ponte com o mundo da vida sem drogas. Por isso, encontrar estas pessoas em contexto profissional é uma oportunidade para ajudar. Como? Não fingindo que não vemos ou que não é nada connosco (a tal responsabilidade).
Fazer o quê? Ser humano no trabalho é o princípio. Não devemos estar no trabalho como meros instrumentos ou peças da engrenagem. Devemos ser humanos e tratar os outros como seres humanos. Estar atento a todos os colegas, em especial aos desadaptados, aos que parecem não estar bem. Dar a mão. Às vezes basta um pouco de atenção, uma palavra, uma ajuda. Não piorar as coisas com “bocas” ou ignorando certas pessoas. Quando estamos seguros que há colegas com problemas, confrontar abertamente. Dizer-lhes que sabemos do seu problema e motivá-los para se tratarem. Transmitir a esses colegas confiança na sua recuperação e não os pôr de lado quando eles voltam depois de uma “cura”.
Mas o desafio maior que se pode lançar ao mundo do trabalho é a prevenção. Devemos procurar informação. Devemos formar-nos. Divulgar informação no seio da empresa. Falar destas coisas, organizar um grupo de discussão e de gestão do problema na empresa, na Comissão de Trabalhadores ou no Sindicato. Procurar consultores especializados que ajudem o nosso grupo a funcionar e a produzir trabalho. Contactar organizações especializadas em prevenção e em tratamento. Propor que a empresa clarifique a sua política nesta área. Propor à empresa a organização de acções de informação e de formação para os trabalhadores.
Estas são só algumas ideias. Quisemos demonstrar que é possível. Agora estão nas vossas mãos. Força.
Textos: Dr. Paulo Vitória
Toxicodependência
A toxicodependência é um fenómeno que, de forma dramática tem marcado os últimos cinquenta anos. A dependência decorre dos efeitos de uma substância sobre o organismo, o que vai provocar uma vontade irresistível de voltar a consumir. As dependências física e psicológica andam habitualmente associadas. Uma vez instalado o hábito de consumir determinada substância, torna-se difícil abandoná-lo definitivamente. É um problema que não acontece só aos outros. A prevenção é a grande aposta para evitar que te confrontes com este problema. A primeira e melhor forma de prevenir é conversar com as pessoas que te rodeiam, os pais são muitas vezes os primeiros agentes de prevenção do consumo de drogas. São os pais que, melhor do que ninguém, conhecem os seus filhos e os podem ajudar. Além disso, maioritariamente os pais são os primeiros modelos, os exemplos a seguir pelos mais novos. São várias as causas que podem levar à toxicodependência. Estudos recentes apontam os factores fundamentais a curiosidade e o gosto do risco, próprios da adolescência e juventude. Outras vezes é a pressão dos amigos que vêem no consumo de drogas uma forma de se afirmar e de ser adulto. A prevenção não termina com a adolescência. A prevenção faz-se todos os dias. A prevenção começa no diálogo com os teus pais, os teus amigos, o teu parceiro(a), os teus colegas, os teus professores…
Tabagismo
Tabagismo significa abuso de tabaco. É o vício de fumar regularmente um número considerável de cigarros, cigarrilhas, charutos ou tabaco de cachimbo. Fumar predispõe para o cancro do pulmão e outros, bronquite e enfisema pulmonar, úlcera gastro-duodenal, doenças cardio-vasculares e acidentes vasculares cerebrais. As mulheres fumadoras grávidas podem prejudicar o desenvolvimento e a viabilidade do feto. Os fumadores também prejudicam a saúde dos não fumadores junto de quem vivem, que acabam por ser fumadores contra vontade (“fumadores passivos”).
Efeitos do tabaco no ser humano
* No aparelho respiratório, 90% dos cancros são devidos ao tabaco.
* No aparelho circulatório, a angina de peito, o enfarte do miocárdio, a hipertensão arterial e o acidente vascular cerebral são algumas das doenças mais frequentes.
* Na área oto-rino-laringológica, 65% dos cancros da boca são devidos ao tabaco bem como a diminuição do olfacto e tendência para rouquidão.
* No aparelho urinário, o tabaco pode provocar cancro da bexiga.
* Ao nível sanguíneo, provoca alterações da coagulação.
* Na mulher, o tabaco aumenta o risco de cancro do colo do útero e em combinação com a toma da pílula contraceptiva, aumenta o risco de trombose venosa.
* No recém-nascido, o tabagismo da mãe aumenta o risco de malformações, parto prematuro, baixo peso ao nascer e síndrome da morte súbita.
Calcula-se que cerca de dois milhões e meio de pessoas morrem anualmente em todo o mundo, devido ao tabaco. Por isso, a Organização Mundial de Saúde propõe a luta, por todos os meios, contra esta autêntica epidemia dos tempos modernos.
Tratamento
O PROJECTO VIDA é o programa nacional de combate à droga. Promove:
* a prevenção do consumo de drogas;
* o tratamento e reinserção social dos toxicodependentes;
* o combate ao tráfego de drogas.
A Linha Vida, integrada no Projecto Vida, é um serviço telefónico, gratuito e confidencial, à tua disposição para te informar e aconselhar sobre problemas de toxicodependência. Funciona de 2ª a 6ª feira, das 10h às 24h, pelo tel. 1414. O PROJECTO VIDA também tem, para quem deseja aconselhar-se por escrito, o e-mail linhavida.lx@ipdt.pt ou o site www.projectovida.pt (clicar em “contacto”). Existem muitas outras instituições vocacionadas para a prevenção e tratamento da toxicodependência. Se tens problemas neste domínio:
* fala com os pais;
* fala com o teu namorado(a);
* fala com o teu director de turma, se estiveres a frequentar a escola;
* consulta o teu médico de família;
* procura um Centro de Atendimento de Toxicodependentes (CAT);
* procura uma ajuda especializada: um psicólogo ou um psiquiatra.
Em Portugal existe o Conselho de Prevenção do Tabagismo, situado na Av. dos E.U.A., 53 D 4º, CP-1700-165 Lisboa, tel 21 844 60 55 e o fax 21 846 42 12. É um órgão de consulta e acção pedagógica dependente do Ministério da Saúde. Compete-lhe a intervenção junto de entidades públicas ou privadas no âmbito do planeamento, coordenação e dinamização das acções de luta contra o tabagismo, colaborando estreitamente com organismos internacionais.
A Coligação das ONG Portuguesas de Prevenção do Tabagismo (privado), Av. dos E.U.A., 53 D 4º, CP-1700-165 Lisboa, tel 21 8464219 e o fax 21 8464212; e-mail: luis.reis.lopes@mail.telepac.pt.
O Gabinete de Dependência Química (privado), na Rua Epifânio Dias, 44, CP-1700-161 Lisboa, tel 21 842 16 70 e o fax 21 842 16 79; e-mail: gdq@mail.telepac.pt.
As doenças causadas pelo consumo exagerado e prolongado do tabaco – incluindo a intoxicação tabágica – são tratadas nos centros de saúde, hospitais e clínicas (públicos e privados) de todo o país. O melhor mesmo é tentares a desabituação, para deixares definitivamente de fumar!
