Reabilitação de toxicodependentes » Recuperar a vida que esteve perdida
Crack, Geral, Tratamentos Março 26th, 2008
«Comecei a consumir aos 36 anos e viciei-me na cocaína fumada – no crack. A partir daí, já fiz vários tratamentos.»
O Nuno tem hoje 46 anos e é toxicodependente, encontrando-se em reabilitação na Comunidade Terapêutica Quinta das Lapas, que pertence à Associação Dianova Portugal.
Há três meses na Comunidade, Nuno conta-nos que já passou por várias comunidades e que a última recaída foi determinante para a sua decisão de dar início a todo o processo de entrada na Quinta das Lapas. Para além da sua motivação pessoal, contou ainda com o apoio por parte da família.
A entrada na Comunidade não foi para Nuno, ao contrário do que acontece com outros, algo de incómodo pelo isolamento da realidade exterior. As portas estão sempre abertas, o que também ajuda a desmistificar alguma sensação de enclausuramento. As saídas vão acontecendo gradualmente, de início em grupo e acompanhados por elementos da equipa.
Para Nuno, a passagem por outras comunidades também já lhe tinha ensinado como as coisas funcionam. Em todo o caso, e relativamente à Comunidade Terapêutica Quinta das Lapas, Nuno confessa-se agradavelmente surpreendido pelo seu modo de funcionamento.
«Sinto que me estou a integrar bem e que todo o processo está a correr da melhor forma. Senti de imediato uma recuperação física e, entretanto, sinto que estou a levantar a minha auto-estima, a sentir-me melhor comigo próprio. Ter horários e adquirir responsabilidades também me ajudaram. Para além disso, acho que aqui há mais acompanhamento profissional, em várias vertentes.»
A equipa é multidisciplinar integrando uma directora da área terapêutica, uma directora técnica, um psiquiatra, uma médica de Clínica Geral, uma psicóloga clínica, uma assistente social, uma técnica de Reinserção Social, um psicopedagogo, monitores, animadores socioculturais, um administrativo e um motorista, para além do apoio jurídico e de recursos humanos.
De futuro, Nuno espera retomar a sua profissão de jornalista e manter-se abstinente em relação às drogas. No fundo, é recuperar uma vida que esteve perdida ou no limbo durante 10 anos. «Gostava de voltar a estudar e quero recuperar. Sinto-me com força para isso. Acima de tudo, também não quero repetir os mesmos erros e ter recaídas que são sempre piores do que a primeira.»
Adaptação, consolidação e pré-reinserção
A Comunidade Terapêutica Quinta das Lapas é uma resposta ao problema da toxicodependência, nomeadamente, pelo tratamento. A abordagem é orientada pelo Programa Livre de Drogas, numa perspectiva cognitivo–comportamental. Actualmente, conta com 31 utentes portugueses e estrangeiros, numa idade média de 25/26 anos, em diferentes fases do programa de abstinência às drogas.
Para entrar na Comunidade há alguns requisitos, como uma série de exames clínicos, uma entrevista biopsicossocial e uma avaliação do perfil e das necessidades do utente.
Com a entrada do candidato, o mesmo dá início a um programa de longa duração, por norma, de um ano. A primeira fase, designada por «Adaptação» tem o tempo mínimo de um mês e consiste essencialmente na recuperação física do utente e na sua integração com a restante Comunidade.
«É a adaptação à Comunidade, aos outros elementos, às regras, ao espaço, a responsabilidade da casa, entre outras coisas.
A recuperação física passa-se também nesta fase e é primordial porque, muitas vezes, nos chegam com alterações do sono e, por exemplo, estados de ansiedade», refere a Dr.ª Cristina Lopes, directora técnica da Comunidade Terapêutica Quinta das Lapas, Dianova Portugal.
Na segunda fase, designada por «Consolidação» e com a duração aproximadamente de nove meses, o utente passa a ter saídas ao exterior. Os grupos temáticos fazem parte também deste período. Inicialmente há dois grupos, um que trabalha as emoções e outro mais de racionalização que aborda alguns aspectos sociais e, por exemplo, a gestão de dinheiro.
Aqui entram as várias actividades como os ateliers de expressão plástica, de carpintaria, o ponto de Internet no qual se dá formação sobre as novas tecnologias aos utentes, entre outras tarefas quotidianas como a cozinha e a lavandaria.
Dependendo da evolução de cada um, começa-se a trabalhar o Projecto de Vida. A reinserção é um objectivo desde o primeiro dia, mas começa a ter mais relevância nesta segunda fase e essencialmente na terceira, a «Pré-reinserção», que tem um tempo estimado de três meses.
Procurar emprego, um estágio ou um curso profissionalizante, definir onde vai viver, assegurar, no caso de ser um utente com hepatite ou VIH, acompanhamento médico, são algumas das etapas que colocam em prática o Projecto de Vida, sendo, por isso, uma fase mais virada para o exterior e com um investimento maior para o retorno à sociedade.
Associação Dianova Portugal: a luta em três vertentes
A Associação Dianova, Instituição Particular de Solidariedade Social e Associação de Utilidade Pública tem por missão contribuir para o desenvolvimento social através da educação e da intervenção nas toxicodependências, regida pelos valores de compromisso, solidariedade, entreajuda, tolerância, autonomia, integração e internacionalidade.
A prevenção, o tratamento e a reinserção dos toxicodependentes são os três objectivos-chave. De acordo com a Dr.ª Christina Lizarza, presidente de Direcção da Associação Dianova Portugal, «a prevenção é realizada aproveitando o know-how e a experiência dos nossos técnicos e recursos Dianova, em parceria com entidades públicas e privadas. Por sua vez, o tratamento é realizado em regime residencial em Comunidade Terapêutica e a reinserção trabalha-se através dos Programas de Reinserção, como são o caso da Empresa de Inserção, o apartamento de reinserção social ou medidas de formação profissional e apoio ao emprego do Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP)».
Fonte: Medicina & Saúde
Álcool e Drogas pode dar nisto!
Álcool, Geral, Videos Março 25th, 2008
Drogas: Pais & Filhos
Drogas em geral, Geral Março 13th, 2008
Dr. Manuel Pinto Coelho
Não é fácil ter um filho toxicodependente. Muitos pais vivem na angústia de não saberem em que ponto da educação erraram e não conseguem lidar com o problema, que muitas vezes, começa na infância.
Quando alguém se interroga dos porquês da entrada na toxicodependência, surgem inevitavelmente por esta ordem ou outra, a busca do prazer imediato, a pressão por parte dos outros, a curiosidade, a acessibilidade, a vontade de se sentir mais velho (a) ou confiante, a revolta, a dificuldade de enfrentar a pressão, de conseguir lidar com maus tratos e abusos ou ainda como forma de melhorar a imagem.
Não nos esqueçamos de que estamos a tratar, na maioria das vezes, de uma franja particular da população – a juventude – que está habituada a receber mais informação do que aquela que pode descodificar e que é habitualmente confrontada com mais opções do que aquelas que pode tomar, numa idade em que é mais apetecível agir que reflectir.
Pode-se dizer que, de um modo geral, os jovens experimentam drogas porque o seu sistema de valores interno não está suficientemente desenvolvido para resistir às pressões externas.
Na origem dos problemas de infância que podem conduzir à droga, a atitude dos pais ou de quem exerça esse papel, é de primordial importância: Por Isso há 13 atitudes básicas que devem ser tomadas em linha de conta (1).
Cuidados a ter na infância
– Os pais devem dar às crianças um sentimento de segurança.
– A criança foi feita para sentir que é amada e desejada.
– O medo e o castigo devem ser evitados tanto quanto possível.
– Deve ser dada à criança a possibilidade de aprender a ser independente e responsável.
– Os pais devem aparentar calma e serem tolerantes, não se mostrando chocados, quando as crianças derem evidência de instintos “selvagens” próprios da sua condição humana.
– Os pais devem ser tão firmes e consistentes quanto possível, de forma a evitar, na criança, a confusão e o aparecimento de atitudes contraditórias.
– É pouco prudente fazer com que uma criança se sinta inferior.
– É imprudente forçar uma criança para além das suas capacidades.
– Os sentimentos e os desejos da criança devem ser respeitados, mesmo se não estiverem exactamente de acordo com os desejos dos pais. Á criança deve ser permitida a satisfação dos seus desejos, dentro, claro está, dos limites do razoável.
– Todas as perguntas que as crianças façam devem ter uma resposta franca e honesta e sem ultrapassar a sua capacidade de compreensão.
– Os pais devem mostrar apreciação e interesse em relação às coisas que os seus filhos estejam a fazer, mesmo que pelos padrões deles, elas não sejam interessantes ou importantes.
– Mesmo que as crianças tenham dificuldades ou problemas, elas deverão sempre ser tratadas, como normais e saudáveis.
– É preferível educar os filhos com o objectivo do crescimento, desenvolvimento e do melhoramento, do que com o objectivo da perfeição.
(1) Maurice Levine
Se os pais criarem a ilusão que conseguem pôr em prática todos estes ensinamentos, ficarão inevitavelmente desiludidos por terem criado esse ideal impossível de perfeição. Não é isso que se pretende.
Muito frequentemente, as atitudes assumidas pelos adultos são desfavoráveis para o saudável e feliz desenvolvimento da criança, tendo como resultado toda uma variedade de situações que se poderão desenvolver depois, como a utilização das drogas, como refúgio (virtual) para o seu mal-estar.
Para Elsa, (nome fictício) ex-toxicodependente, os pais devem:
– Não aceitar a “benignidade“ das drogas “leves”, ajudando-os a compreender que as mesmas frequentemente são causadoras da “ingressão” nas drogas “pesadas”.
– Não passarem a ser policias – o uso das drogas não se resolve com tensão e ansiedade.
– Não se envergonharem por terem um filho “drogado”. Devem falar com ele, pedir ajuda a pais na mesma situação e/ou a especialistas.
– Procurarem ajudar o filho em vez de lhe atirarem à cara as asneiras que anda a fazer, tomando consciência que tão cedo as asneiras não vão acabar.
– Aceitarem que, ainda que inconscientemente, são eles pais que sustentam o vício dos filhos, facilitando-lhes a vida.
– Não acusar, mesmo que seja esse o impulso que sentem, num momento de raiva e desespero.
– Darem um acompanhamento mais activo, paralelamente ao apoio prestado pelos técnicos.
O meu filho está a usar drogas?
Sinais de alerta:
– Desinteresse repentino pelos verdadeiros amigos, pela escola, pela família e pelos desportos.
– Isolamento. Passar horas a fio na rua ou enfiados no quarto.
– Pedir bastante dinheiro em casa, utilizando os mais variados pretextos (virtual pagamento de multas, gasolina, etc)
– Começar a ser bastante crítico com as pessoas e com a vida.
– Cada vez mais dificuldade em acordar ou adormecer.
– Mudança súbita de vestuário e desleixo.
– Desaparecimento de objectos pessoais ou de familiares (ouro, antiguidades, etc.)
O meu filho é toxicodependente.
O que fazer?
– Identificar e utilizar valores tais como a saúde, o(a) companheiro(a) ou família, a aparência, a relação com Deus, a inteligência, a posição na comunidade, o auto-respeito, a sua profissão ou os amigos.
– Motivação. A melhor resposta que se pode dar à pergunta: “Quando é que as pessoas mudam?” ainda é: “quando as próprias quiserem”. O que se pode fazer então é activar o desejo de saída, contrariando a filosofia de algum modo instalada no nosso país de que as drogas vieram para ficar e que não há outra solução senão adaptarmo-nos a elas, fazendo ver ainda que ao contrário do que alguns apregoam, a toxicodependência não é uma doença crónica, recorrente e fatalmente progressiva e que há saída para ela.
– Recompensas. Pesar os custos e os benefícios da toxicodependência. As pessoas desistem da droga quando começam a ter mais recompensas por viverem sem ela do que com ela.
– Recursos. Identificar forças e fraquezas, avaliando as reservas que se tem e as que estão a faltar para depois as ir buscar!
– Procurar apoio entre as pessoas mais próximas, a começar pela família.
– Procurar amadurecer a identidade pela procura do auto-respeito e de uma vida de novo responsável.
– Procurar alcançar objectivos mais altos, perseguindo e atingindo coisas de valor, como por exemplo coisas que beneficiem outras pessoas e contribuam para o bem-estar da comunidade. Habitualmente, quando alguém deixa de ser egoísta e se foca nas outras pessoas, acaba por desistir do seu comportamento auto-destrutivo.
Dr. Manuel Pinto Coelho
Na teia da droga
Uma vez deixados enredar na teia da droga, só se conseguem libertar quando assumem responsabilidades perante si e os outros. Apenas quando forem capazes de tomar decisões e terem arcaboiço para suportar depois as consequências é que conseguem dar esse passo.
Isso acontece quando conseguirem reconhecer obrigações nos valores (habitualmente adormecidos durante a fase dos consumos) que sustentam, quer eles estejam relacionados com os seus filhos, pais, amigos, empregados, colegas, vizinhos, ou com o país em que vivem.
Acresce que a sociedade de consumo, na qual todos nos integramos, está aliada a diversas questões, como forte individualismo (egoísmo), competitividade, busca incessante do cómodo e confortável, falta de solidariedade e de comunicação, ansiedade e stress, factores estes que vão provocar depois, insegurança e instabilidade psicológica.
Além disto, podemos apontar a existência de problemas sociais como desemprego, pobreza, exclusão, racismo, degradação patrimonial, falta de condições de ensino e insucesso escolar e profissional, os quais juntamente com a indiferença religiosa e a inexistência de crença na transcendência humana, podem ser conducentes ao uso de substâncias psicoactivas.
Deste modo, o recurso à droga pode ser visto como forma do Homem combater um sentimento individual e colectivo de angústia e insegurança.
Fonte: Saúde Semanário
Hábitos de consumo no ensino superior
Geral Janeiro 9th, 2008
As drogas dos estudantes
Os números são preocupantes. Quase um terço dos estudantes do ensino superior já experimentaram substâncias ilícitas, de onde se destaca o haxixe, cocaína, heroína, LSD e drogas injectáveis. A Guarda, a acreditar num estudo sobre os hábitos de consumo junto da população estudantil, parece ser um pequeno oásis.
Quase um terço dos estudantes do Ensino Superior já experimentaram haxixe, cocaína, heroína, LSD e drogas injectáveis ou outras substâncias. Esta é a conclusão do estudo “Consumo de substâncias lícitas e ilícitas em estudantes do ensino superior”, encomendado pelo Instituto Português para a Prevenção da Toxicodependência, realizado em 1998 junto de 6792 alunos de mais de cem instituições do ensino superior público e privado, civil e militar, do continente e regiões autónomas, e que o “Público” deu conta na edição da passada Quinta-feira. Nos cinco quadros apresentados no estudos, e que dizem respeito à percentagem, por distritos, de estudantes que já consumiram drogas, a Guarda á apenas referida no consumo de haxixe, com uma percentagem de 20 por cento, aparecendo em penúltimo lugar da lista, constituída por vinte distritos e encabeçada por Setúbal e Évora com quase 40 por cento. Para Cardoso Ferreira, responsável pelo Centro de Atendimento de Toxicopendentes, o estudo merece-lhe «alguma confiança» apesar de não o ter lido em detalhe. «A única coisa que posso dizer é que conheço o médico responsável pelo estudo, Dr. Jorge Torgal, e tenho muita consideração pela qualidade do trabalho que ele tem feito anteriormente», justifica. No entanto, refere não saber como valorizá-lo já que desconhece, em pormenor, as condições em que o mesmo foi realizado. «Em relação ao ecstasy, já tínhamos a convicção de que esses consumos são muito mais expressivos em Viseu e Coimbra que na Guarda, por parte dos estudantes universitários.
Falta de informação
No que diz respeito ao não aparecimento de taxas expressivas, por exemplo, no consumo de heroína e de cocaína, que são drogas que dão fortes dependências, normalmente tenho relacionado com o facto de esses consumos serem dificilmente compatíveis com a pessoa estar a frequentar activamente um curso superior». Isto porque, explica, «normalmente as pessoas vão cortando as suas ligações com os projectos que tinham anteriormente». Quanto à comparação com outros distritos, Cardoso Ferreira diz não saber fazer a comparação uma vez que não teve acesso ao estudo.
Norberto Gonçalves, coordenador distrital do núcleo da Guarda do Instituto Português da Droga e da Toxicodependência (IPDT), afirma não poder pronunciar-se sobre algo que não conhece. De qualquer forma, adianta que a apresentação pública do estudo irá ser realizada hoje, em Lisboa, durante o resumo das conclusões da “Semana de prevenção”. Durante o encerramento deste programa, serão ainda apresentados os premiados no concurso internacional “Os jovens e o álcool”, e as medidas governamentais sobre a toxicodependência. Quanto ao estudo, aquele responsável garante não ter nada sobre ele, e que as informações que possui foram as transmitidas pela comunicação social.
Bragança destaca-se pela negativa
Olhando para as diferenças entre distritos, Bragança lidera a lista das regiões onde o contacto com drogas atinge os valores mais elevados. De salientar que encontram-se aqui percentagens de experimentação acima da média nacional em sete das oito drogas ilegais. Castelo Branco, Coimbra e Viana vêm logo a seguir, com consumos mais elevados em três substâncias. Évora distingue-se pelo número de alunos que teve contacto com a cocaína (9,2 por cento, seis pontos acima da média nacional) e haxixe (quase 40 por cento dos estudantes já tinham, pelo menos, experimentado).
Outra das variáveis determinantes é o sexo dos inquiridos. Em relação a todas as drogas avaliadas, são os rapazes que mais experimentam. Mas quando se chega ao padrão de consumo, a conclusão é que a “regularidade”, por oposição à simples experimentação ou uso ocasional, é preponderante entre as raparigas. É assim para todas as drogas, excepto o haxixe. A título de exemplo, saliente-se que 23,9 por cento das consumidoras de heroína admitiram-no fazê-lo regularmente contra 11 por cento dos rapazes.
Toxicodependência e trabalho
Geral Janeiro 9th, 2008
A toxicodependência é um dos problemas sociais mais graves do nosso tempo. Ninguém pode alhear-se desta realidade. Se aceitarmos que a toxicodependência é um problema social, então temos que aceitar também que o problema é de todos, ou seja, é de cada um – uma responsabilidade de todos e de cada um. Esta ligação entre o social e o individual, responsabilizando ao mesmo tempo (todas) as pessoas e as organizações construídas pelas pessoas, é a marca comum de todos os grandes problemas do nosso tempo: toxicodependência, SIDA e outros problemas de saúde, guerras, fome, justiça social, participação e cidadania, exclusão, racismo, sustentação do meio ambiente, segurança nas cidades, consumismo, etc… São problemas que resultam da forma como a sociedade está organizada (e somos nós que a organizamos).
Responsabilidade. O que significa sermos todos responsáveis? Significa que todos temos “culpa”?… Pensar em “culpas” e “culpados” é olhar para o passado. A ideia de responsabilidade aponta para o futuro, para a gestão do problema. É aí que todos temos um papel a desempenhar. Todos temos que assumir que a nossa colaboração é fundamental. E a colaboração de cada um começa na condução da sua própria vida e passa por um envolvimento responsável na vida da comunidade que o envolve. Ser responsável é respeitar a vida plena, é cultivar uma atitude ética face à nossa vida e face à vida dos outros.
Situado o problema da toxicodependência neste ponto de vista, justifica-se a relação entre toxicodependência e trabalho. A sociedade onde vivemos somos nós, indivíduos, mais as organizações que construímos. E as organizações relacionadas com o trabalho são muito importantes na sociedade em que vivemos. Essas organizações também têm responsabilidades. Compreender e gerir estes problemas passa obrigatoriamente por estas organizações e pela forma como as pessoas participam e se relacionam nelas e com elas (e vice-versa).
Mas vamos devagar. Afinal do que estamos a falar? Drogas? Toxicodependência?… Todos temos uma ideia do que se trata. Mas o assunto continua a ser polémico. Há muitas ideias controversas em cima da mesa e o assunto é de paixões (está na moda!). Para nos entendermos, seguem-se algumas perguntas e respostas de algibeira. Não esperamos que concordem com o que escrevemos. Esperamos que pensem no que escrevemos.
O que são as drogas?
Designam-se genericamente por “droga” todas as substâncias que podem modificar uma ou mais funções de um organismo vivo em que são introduzidos. As drogas que estão relacionadas com a toxicodependência são apenas uma parte do conjunto das drogas: São as drogas psicoactivas, que se caracterizam pelo poder de modificar as funções do Sistemas Nervoso Central (SNC).
O SNC é muito importante. Tem uma grande influência na forma como entendemos o mundo que nos rodeia e na maneira como lidamos com esse mundo. A consciência, a orientação, as diferentes formas de percepção, o pensamento e a compreensão, a memória, a atenção, o tempo de reacção e a qualidade das decisões… podem ser afectadas por estas substâncias. O que somos, a forma como nos vemos e de como estamos com os outros também. Os sentimentos, os interesses, os valores. A relação com pais, com filhos, com cônjuges, com namorados e namoradas. A relação com a família, com a escola, com o trabalho, com os amigos. Tudo pode ser profundamente afectado pelo consumo destas drogas. O conceito nuclear desta influência que as drogas podem ter na vida de quem as consome é a dependência.
O que é a dependência?
Há vários tipos de drogas psicoactivas. Podem distinguir-se pela sua origem geográfica, pela forma como são produzidas, pelos seus efeitos, pelo perigo associado ao seu consumo, pela forma como são vistas em diferentes culturas e sistemas jurídicos, etc..
Mas mais importante que as diferenças é o que estas substâncias têm em comum. Uma característica fundamental comum a todas as drogas psicoactivas é a dependência que podem provocar a quem as consome.
A dependência remete sempre para a relacão de uma pessoa com a substância. Todas as drogas têm aspectos positivos e negativos e podem ser melhor ou pior utilizadas pelas pessoas. A dependência é uma utilização inadequada de uma droga por quem a consome. Colocando desta forma a questão, fica no ar uma ideia: a pessoa dependente tende a ser vista como responsável pela sua dependência. É muito importante discutir esta ideia, que retomaremos na questão sobre a toxicodependência como doença. Mas o que é afinal a dependência?
Existe a dependência física, que corresponde a uma adaptação inadequada do organismo à droga consumada regularmente. Quando esta falta, o organismo ressente-se de uma forma que provoca grande sofrimento no consumidor. Como é sabido, nem todas as drogas provocam este tipo de dependência.
Existe outra forma de dependência que pode ser provocado por todas as drogas psicoactivas e que é muito mais grave: é a dependência psicológica. Trata-se de um processo em que a droga toma progressivamente conta da vida do seu consumidor. Associa-se geralmente a uma ilusão de poder e de controlo dos problemas e a uma negação da dependência. O consumidor não se apercebe do que lhe está a acontecer e não aceita os avisos dos amigos e familiares. Chega a um ponto em que a droga é a única razão de ser e de existir dessa pessoa. A família, a escola, o trabalho, os amigos, tudo deixa de interessar. Neste estado, a recuperação é extremamente difícil pois retirar a droga à pessoa equivale a retirar-lhe a razão de viver. É o vazio absoluto, que se torna insuportável para qualquer ser humano.
Quando falamos de dependência não podemos esquecer a codependência. Trata-se da dependência que algumas pessoas desenvolvem relativamente a um toxicodependente. Amigos, colegas, namorado/a, familiares podem envolver-se de tal forma no problema de um toxicodependente que ficam também “agarrados”. Deixam de viver as suas vidas para viver em função do problema do seu ente querido. Esta reacção é compreensível em pessoas que se preocupam com os outros, em especial quando gostam muito deles. Mas acaba por prejudicar a evolução do problema do toxicodependente e, além disso, os co-dependentes tornam-se também pessoas com problemas que precisam de ajuda para recuperar.
Os toxicodependentes são doentes?
A toxicodependência não é entendida como uma doença comum pela generalidade das pessoas. Muitos negam mesmo que se trate de um problema de saúde. Esta ambiguidade relativa à toxicodependência é semelhante à ambiguidade com que a sociedade sempre encarou os problemas mentais em geral. A principal razão destas dúvidas resulta da impressão de que as pessoas com problemas mentais são fracas e paradoxalmente, a impressão que essas pessoas são responsáveis pelos seus problemas (estão/são assim porque querem).
Se vivemos todos no mesmo mundo, sujeitos às mesmas pressões e dificuldades, porque apenas uma minoria se torna mentalmente perturbado? A resposta evidente é simples: porque nós, os equilibrados, somos fortes e eles, os desiquilibrados, são fracos. Mas as realidades humanas escapam sempre às respostas simples e evidentes. Temos que admitir que não somos fortalezas inexpugnáveis e que estes problemas também nos poderão acontecer a nós. Temos que admitir que não há “nós” e “eles”, mas sim seres humanos cuja essência é a conjugação de forças e de fraquezas. E a toxicodependência é um bom exemplo para reflectirmos sobre esta realidade.
Os toxicodependentes são parcialmente responsáveis pelo caminho que percorrem entre a vida sem droga e a vida dependente de droga. São também responsáveis por dar os passos fundamentais para a sua recuperação. Mas quando estão dependentes estão doentes porque não controlam essa situação e a sua vida. Precisam de ajuda, ou seja, precisam de se tratar. E é assim com a maioria das doenças do fim do século, cada vez mais o resultado do que somos e fazemos, cada vez mais marcadas pela dimensão da saúde mental/doença mental. Somos parcialmente responsáveis pela nossa saúde, um recurso que temos de cultivar no dia a dia durante toda a vida. Somos cada vez mais responsáveis pela qualidade da nossa vida mesmo quando estamos doentes – notar que as doenças do fim do século tendem a ser crónicas e de evolução prolongada (SIDA, cancro, problemas cardiovasculares, etc.).
Porquê a toxicodependência?
Prevalece a opinião que a droga é a principal causa dos nossos males. Mas é ao contrário., Os nossos males é que são a causa da importância que a droga ganhou nas nossas vidas. Quais são esses males?… Pergunta difícil, porque são tantos, todos tão enleados uns nos outros, que é dificil encontar o fio à meada. Em seguida referimos alguns desses males, mas não se esqueçam que a explicação não depende de um ou de alguns. Depende da combinação de todos.
O Ser. A toxicodependência é um problema do Ser, mas as explicações devem ser procuradas nas circunstâncias do Ser. As drogas, as pessoas com problemas, as suas vidas e as suas famílias, as instituições sociais como a Família, a Escola, ou Trabalho e a Rua. As cidades e a sociedade. A televisão e as outras formas de ilusão. A política e a economia.
As drogas. Os efeitos das drogas nas pessoas é uma vertente da explicação do problema. As drogas produzem uma ilusão de bem estar e de poder. Esta ilusão é artificial, mas as pessoas habituam-se a “ser” assim e só o conseguem com drogas.
A dependência e a negação, de que falámos antes, são também razões fortes para explicar esta doença.
As pessoas. As pessoas que se tornam dependentes são outra perspectiva necessária para compreender o problema. Histórias de vida e formas de ser diferentes: por exemplo, uma ideia pobre de si mesmo, uma expectativa inadequada sobre a vida, uma sede e viver e de vencer depressa, o medo exagerado do futuro, o sofrimento de Ser que se torna insuportável para alguns…
Famíla, Escola e Rua. Família desorientada, desagregada pelo individualismo dos nossos dias. Escola massificadora, que oferece pouco e não deixa procurar mais. Família e Escola que não atinam na missão primordial que é educar, que é formar o Ser. A Família perdida que se demite das suas responsabilidades. A Escola que nunca poderá substituir a Família. E para os jovens pouco espaço sobra para encontrar o sentido das suas vidas, para encontrar o Ser. Falta o rumo e o Ser, e assim andar nas “Ruas” é muito perigoso.
Trabalho e Família. Muitos perdem-se antes de chegar a altura de ter um trabalho. Mas outra das guerras do nosso tempo é entre a Família e Trabalho. O Trabalho desvaloriza a Família. Somos o que fazemos, somos o nosso trabalho. Somos no presente e esquecemos os nossos filhos que ainda não são nada. Crescer na Família é essencial ao Ser. É aí que se forma a raiz do Ser. Crescer mais, na Escola, na Rua e no Trabalho só é possível a partir dessa raiz. Equilibrar a Família e o Trabalho é um dos desafios que o nosso tempo coloca a cada um para continuarmos todos a ser (antes já falámos da responsabilidade de cada um, lembram-se?).
Cidade. Massa enorme, disforme, de pessoas sem identidade e sem Ser. A droga é a expressão máxima da vida das cidades, da vida sem Ser. É a massa da cidade que está a matar o respeito que o ser humano tinha pelo Ser.
Sociedade. Individualismo e materialismo exacerbado. Tudo tende para o coisificado, para o não-Ser. O Ser (humano) isolado não é Ser, é coisa entre coisas. O Ser (humano) constroi-se e cultiva-se na relação com outros Seres. É do respeito pelo outro que nasce o respeito por nós próprios e o sentido de uma existência digna e responsável.
Televisão. A ilusão. Como a droga. A vida fora de nós, tão depressa que não nos dá tempo para sentir, para pensar. Não nos dá tempo para Ser, para sermos nós próprios.
Política e Economia. A droga é um problema social e global, ou seja, é um problema político. Cabe aos políticos a visão. Cabe-lhes definir a estratégia e promover a mobilização da tal responsabilidade de todos e de cada um. Infelizmente costumam gastar o seu tempo com coisas mais urgentes (mas menos importantes). Quanto à economia, todos sabemos que a droga é um dos maiores negócios do mundo. Há países economicamente dependentes. Depois os tentáculos do polvo chegam a todo o lado. Não podemos dizer que a política e a economia criaram sozinhas este problema. Podemos dizer que contribuíram para este problema nascer e crescer. Podemos dizer que a sua contribuição para gerir este problema é indispensável.
Quais são as principais drogas?
O álcool continua a ser a droga mais consumida e a que produz mais problemas para o conjunto da sociedade. Estima-se que 10% da população portuguesa (1 milhão de pessoas) tenha problemas relacionados com consumo de álcool. Problemas de saúde graves, violência doméstica, acidentes de viação e laborais, custos de protecção social e de serviços de saúde são exemplos das consequências do consumo de álcool.
As drogas ilegais são outro tipo de problema. O haxixe é a droga ilegal mais consumada, mas a que provoca mais problemas é a heroína. Há também a cocaína e as drogas similares. Estima-se que 50.000 a 150.000 portugueses estão dependentes de drogas ilegais. As principais consequências deste problema são vidas e famílias desfeitas. A criminalidade urbana é outro problema grave associado ao consumo de drogas ilegais. A droga é, directa ou indirectamente, a causa da prisão de mais de metade da população prisional portuguesa. Os custos de saúde, sociais e criminais do consumo de drogas são incalculáveis. A grande corrupção, as máfias e o terrorismo, que se sustentam com a produção e o tráfico de drogas ilegais, são um problema ainda mais sério que pode fazer ruir pela base toda a nossa sociedade. Há estados completamente enfiados, mas o pior são as ameaças à justiça e à liberdade, princípios fundamentais dos sistemas democráticos.
Os psicofármacos consumidos sem controlo médico é um problema menos conhecido mas cuja gravidade tem vindo a aumentar. Os toxicodependentes usam muitas vezes os “comprimidos” como alternativa às outras drogas. Mas os tranquilizantes e anti-depressivos consumidos diariamente pelo comum dos cidadãos provocam muitas dependências ocultas em todas as idades e estratos sociais. Pessoas que vivem de forma limitada sem darem por isso, permanentemente anastesiadas/ alienadas pela droga.
Que respostas para controlar este problema?
Não há respostas certas e definitivas. Não há soluções. Temos que admitir que este problema não pode ser resolvido. Pode é ser gerido. A sua gestão depende de todos nós. Temos de nos responsabilizar, por nós e pelos outros. Pela nossa saúde e bem estar e pelo bem estar dos outros. Tal como pelo nosso meio. A sociedade e o meio que temos são, em grande parte, o que nós fazemos. Temos que nos preparar, que nos educar. Temos a responsabilidade comum de fazer o melhor possível, por nós e pelos que virão.
Trabalho e toxicodependência
A toxicodependência pode prejudicar o trabalho (absentismo, acidentes, baixa de produtividade, confiituosidade, imagem … ). O mundo do trabalho pode contribuir para a toxicodependência. Trabalho pobre, trabalho rico, inadequação do trabalho, ausência de trabalho, má gestão do trabalho, stress. O trabalho tem riscos para a saúde física e mental. Por estas duas razões, e por causa da tal responsabilidade de que tanto falámos, as organizações de trabalho e as pessoas que aí estão devem fazer qualquer coisa. Dever … e querer. Dever ético. Querer, porque sabemos que poder não chega. E porque querer é poder. Por nós próprios, pelos nossos trabalhos e pelos nossos filhos, devemos todos fazer qualquer coisa.
A maioria das pessoas com problemas de consumo de álcool e drogas trabalha. Alguns trabalham de forma “especial”, mas trabalham. Por vezes a sua família está desorganizada e os “amigos” vivem também no mundo da droga. O trabalho acaba por ser a única ponte com o mundo da vida sem drogas. Por isso, encontrar estas pessoas em contexto profissional é uma oportunidade para ajudar. Como? Não fingindo que não vemos ou que não é nada connosco (a tal responsabilidade).
Fazer o quê? Ser humano no trabalho é o princípio. Não devemos estar no trabalho como meros instrumentos ou peças da engrenagem. Devemos ser humanos e tratar os outros como seres humanos. Estar atento a todos os colegas, em especial aos desadaptados, aos que parecem não estar bem. Dar a mão. Às vezes basta um pouco de atenção, uma palavra, uma ajuda. Não piorar as coisas com “bocas” ou ignorando certas pessoas. Quando estamos seguros que há colegas com problemas, confrontar abertamente. Dizer-lhes que sabemos do seu problema e motivá-los para se tratarem. Transmitir a esses colegas confiança na sua recuperação e não os pôr de lado quando eles voltam depois de uma “cura”.
Mas o desafio maior que se pode lançar ao mundo do trabalho é a prevenção. Devemos procurar informação. Devemos formar-nos. Divulgar informação no seio da empresa. Falar destas coisas, organizar um grupo de discussão e de gestão do problema na empresa, na Comissão de Trabalhadores ou no Sindicato. Procurar consultores especializados que ajudem o nosso grupo a funcionar e a produzir trabalho. Contactar organizações especializadas em prevenção e em tratamento. Propor que a empresa clarifique a sua política nesta área. Propor à empresa a organização de acções de informação e de formação para os trabalhadores.
Estas são só algumas ideias. Quisemos demonstrar que é possível. Agora estão nas vossas mãos. Força.
Textos: Dr. Paulo Vitória
