Yagé

Ayahuasca (Yagé ou Caapi)

A Banisteriopsis caapi é uma trepadeira originária da floresta amazónica, utilizada há séculos por diversos povos indígenas da Amazónia em contextos religiosos, espirituais e medicinais.

A bebida preparada a partir desta planta recebe diferentes nomes consoante a região. Entre povos indígenas do Brasil e da Colômbia é frequentemente conhecida como caapi; no Peru, Bolívia e Equador é chamada ayahuasca; enquanto em algumas regiões andinas é designada por yagé.

A preparação tradicional resulta da fervura prolongada do cipó da Banisteriopsis caapi, normalmente em conjunto com outras plantas, sendo a mais comum a Psychotria viridis (chacrona), rica em N,N-dimetiltriptamina (DMT), um potente composto psicadélico. Em algumas tradições podem ainda ser utilizadas outras espécies vegetais, embora as combinações variem de acordo com a cultura e a região.

O principal composto ativo da Banisteriopsis caapi é a harmina, acompanhada por outros alcaloides beta-carbolínicos, como a harmalina e a tetrahidro-harmina. Estas substâncias inibem temporariamente a enzima monoamina oxidase (MAO), permitindo que o DMT seja ativo por via oral.

A composição química da bebida varia significativamente conforme as plantas utilizadas, o método de preparação e a tradição cultural, não existindo uma concentração padronizada dos seus compostos ativos.

Efeitos

Pouco tempo após a ingestão da ayahuasca, é frequente surgirem náuseas, vómitos e, por vezes, diarreia. Estes efeitos são frequentemente interpretados, em contextos religiosos, como um processo de purificação física e espiritual.

Posteriormente podem surgir alterações profundas da perceção, incluindo:

  • alucinações visuais;
  • intensificação das cores;
  • padrões geométricos;
  • sensação de expansão da consciência;
  • alterações da perceção do tempo e do espaço;
  • experiências emocionais intensas;
  • introspeção profunda.

Também podem ocorrer tonturas, perda temporária da coordenação motora, aumento da frequência cardíaca e alterações da pressão arterial.

Algumas pessoas descrevem uma sensação de maior clareza mental, enquanto outras podem experimentar ansiedade intensa, medo, confusão ou episódios de pânico.

Efeitos psicológicos

As experiências induzidas pela ayahuasca variam significativamente entre indivíduos e dependem da dose, do ambiente, do estado emocional e das expectativas do participante.

Em contexto religioso, muitas pessoas interpretam as visões como experiências espirituais ou místicas.

Embora existam relatos subjetivos de aumento da criatividade, da introspeção e da sensação de ligação espiritual, não existe evidência científica de que a ayahuasca permita desenvolver capacidades paranormais, prever acontecimentos futuros ou aumentar a perceção extrassensorial.

Durante muitos anos, a harmina foi designada por telepatina, devido à crença de que poderia induzir fenómenos de natureza telepática. Atualmente sabe-se que esta designação tem apenas interesse histórico e não corresponde a propriedades comprovadas da substância.

Riscos

A ayahuasca pode provocar efeitos adversos significativos, sobretudo em pessoas com determinadas doenças psiquiátricas ou cardiovasculares.

O risco aumenta quando a bebida é consumida em associação com antidepressivos (especialmente inibidores seletivos da recaptação da serotonina e inibidores da MAO), estimulantes ou outras substâncias psicoativas.

Embora a ayahuasca seja geralmente considerada segura quando preparada corretamente e utilizada em contextos tradicionais ou clínicos controlados, existem relatos de intoxicações graves relacionadas com preparações adulteradas, doses excessivas ou utilização de plantas tóxicas adicionadas à bebida.

Por esse motivo, o seu consumo deve ser encarado com prudência e nunca deve ocorrer sem conhecimento dos seus potenciais riscos.

Canábis (Maconha)

Verdades e mitos

Ao longo dos anos, a canábis tem sido alvo de inúmeros debates científicos e sociais. Muitas afirmações divulgadas no passado revelaram-se incorretas ou incompletas à luz do conhecimento atual.

Algumas verdades

  • O impacto da legalização ou descriminalização no consumo varia entre países e depende de diversos fatores sociais, económicos e culturais. Não existe uma relação simples entre legalização e aumento ou diminuição do consumo.
  • Fumar canábis expõe os pulmões a substâncias potencialmente nocivas resultantes da combustão. O consumo frequente por via fumada pode aumentar o risco de problemas respiratórios, embora a relação direta com o cancro do pulmão continue a ser objeto de investigação.
  • O consumo durante a gravidez é desaconselhado. Atualmente existem evidências de que a exposição pré-natal ao THC pode afetar o desenvolvimento fetal e aumentar alguns riscos para a gravidez.
  • A canábis pode prejudicar o desempenho desportivo, sobretudo em atividades que exigem coordenação, reflexos rápidos e elevada capacidade de concentração.

Alguns mitos

  • A canábis não provoca dependência em todas as pessoas, mas pode causar dependência em alguns consumidores, especialmente quando o consumo começa precocemente ou é frequente.
  • O consumo regular pode afetar temporariamente a memória, a atenção, a aprendizagem e a velocidade de processamento da informação, sobretudo durante a intoxicação.
  • A interrupção do consumo pode provocar síndrome de abstinência, geralmente ligeira a moderada, incluindo irritabilidade, ansiedade, alterações do sono e diminuição do apetite.
  • As variedades atuais de canábis podem apresentar concentrações de THC muito superiores às existentes há algumas décadas, aumentando o risco de efeitos adversos.

Definição

A maconha é uma das diversas preparações obtidas a partir da planta Cannabis sativa, embora atualmente se reconheçam também outras espécies e subespécies, como Cannabis indica.

Da planta obtêm-se igualmente produtos como o haxixe e outros preparados ricos em canabinóides.

O principal composto psicoativo é o delta-9-tetrahidrocanabinol (THC), concentrado sobretudo na resina produzida pelas flores femininas.

Habitualmente é consumida sob a forma de cigarros (“charros” ou “baseados”), vaporizada ou incorporada em alimentos e bebidas.

Os efeitos variam consoante a dose, a concentração de THC, a presença de outros canabinóides, a via de administração e as características individuais de cada consumidor.

Efeitos

Os efeitos iniciam-se normalmente poucos minutos após a inalação e podem prolongar-se durante duas a quatro horas, embora alguns efeitos residuais possam durar mais tempo.

Entre os efeitos físicos mais frequentes encontram-se:

  • aumento temporário da frequência cardíaca;
  • vermelhidão dos olhos;
  • boca seca;
  • aumento do apetite;
  • diminuição dos reflexos.

Os efeitos psicológicos podem incluir:

  • sensação de relaxamento;
  • bem-estar;
  • euforia;
  • aumento da sociabilidade;
  • alteração da perceção do tempo;
  • intensificação das perceções sensoriais;
  • dificuldade de concentração;
  • alterações da memória de curto prazo.

Em algumas pessoas podem surgir ansiedade, ataques de pânico, paranoia e, em casos raros, episódios psicóticos temporários.

Riscos

A canábis altera os reflexos, a atenção e o tempo de reação, pelo que não deve ser consumida antes de conduzir veículos ou operar máquinas.

Embora não existam casos confirmados de morte por intoxicação direta exclusivamente provocada por THC, o consumo pode aumentar significativamente o risco de acidentes.

O consumo frequente por via fumada pode agravar doenças respiratórias, como bronquite crónica.

Em pessoas geneticamente predispostas, pode aumentar o risco de desenvolvimento ou agravamento de determinadas perturbações psiquiátricas.

História

A Cannabis sativa é utilizada há vários milhares de anos.

Registos provenientes da China, datados de cerca de 2700 a.C., descrevem a sua utilização medicinal.

Também foi utilizada na produção de cordas, tecidos, velas para embarcações e papel.

Marco Polo descreveu o seu cultivo em várias regiões da Ásia e do Médio Oriente.

Durante séculos, a planta foi empregada em diferentes culturas tanto para fins medicinais como religiosos e recreativos.

No continente americano, a canábis foi introduzida pelos colonizadores europeus e também utilizada para produção de fibras têxteis.

Ao longo do século XX, muitos países proibiram o seu consumo, embora vários tenham posteriormente optado pela descriminalização ou legalização parcial, sobretudo para fins medicinais.

Utilização medicinal

Nas últimas décadas, diversos estudos demonstraram benefícios terapêuticos da canábis e dos canabinóides em determinadas situações clínicas.

Entre as utilizações atualmente reconhecidas em vários países encontram-se:

  • controlo das náuseas e vómitos associados à quimioterapia;
  • tratamento de algumas formas de epilepsia resistente;
  • espasticidade na esclerose múltipla;
  • dor crónica em situações específicas;
  • estimulação do apetite em determinadas doenças.

Contudo, estes tratamentos utilizam preparações farmacêuticas específicas e devem ser realizados sob supervisão médica.

Situação atual

A legislação relativa à canábis varia significativamente entre países.

Alguns permitem apenas o uso medicinal, outros descriminalizaram a posse para consumo pessoal e alguns legalizaram igualmente o uso recreativo, sujeito a regulamentação.

O debate científico, médico, jurídico e social continua em evolução, acompanhando a publicação de novos estudos sobre os benefícios, riscos e impacto da regulamentação da canábis.

Tranquilizantes

Tranquilizantes

Os tranquilizantes surgiram no século XX com o objetivo de aliviar a ansiedade, o medo, a tensão e outras perturbações emocionais. Em conjunto com o álcool, a nicotina e alguns medicamentos analgésicos, estão entre os fármacos mais utilizados em todo o mundo.

Os tranquilizantes pertencem a diferentes classes farmacológicas, mas, de forma geral, atuam como depressores do sistema nervoso central.

Benzodiazepinas

As benzodiazepinas, tradicionalmente designadas por tranquilizantes menores, incluem medicamentos como o Librium e o Valium.

Durante muitos anos foram dos medicamentos mais prescritos em todo o mundo devido à sua eficácia no tratamento da ansiedade, da insónia, das crises de pânico e de outras perturbações.

Quando utilizados durante períodos curtos e sob supervisão médica apresentam um perfil de segurança relativamente favorável. Contudo, o uso prolongado pode provocar tolerância, dependência física e psicológica, bem como síndrome de abstinência quando a medicação é interrompida de forma abrupta.

Meprobamatos

Os meprobamatos são representados principalmente pelos medicamentos Equanil e Miltown, introduzidos em 1955.

Inicialmente considerados medicamentos seguros e pouco propensos a causar dependência, verificou-se posteriormente que apresentam um risco significativo de abuso, dependência e sobredosagem, razão pela qual a sua utilização diminuiu drasticamente.

Metaqualona

A metaqualona inclui medicamentos como Quaalude e Mandrax.

Trata-se de um sedativo e hipnótico não barbitúrico que foi amplamente utilizado nas décadas de 1960 e 1970.

Mais tarde ficou demonstrado que possui um elevado potencial de dependência, abuso e sobredosagem, tendo sido retirada da maioria dos mercados farmacêuticos.

Fenobarbital

O fenobarbital pertence ao grupo dos barbitúricos e é comercializado, entre outros nomes, como Luminal.

É utilizado principalmente no tratamento de determinadas formas de epilepsia e como anticonvulsivante.

Embora possa ser eficaz em contexto médico, o seu uso prolongado pode provocar dependência física e psicológica. A interrupção súbita pode originar uma síndrome de abstinência potencialmente grave.

Fenotiazinas

As fenotiazinas incluem medicamentos como Thorazine, Compazine e Mellaril.

São classificadas como antipsicóticos e são utilizadas no tratamento de perturbações como a esquizofrenia e outras psicoses.

Apresentam baixo potencial de dependência, mas podem provocar efeitos adversos importantes, nomeadamente sintomas extrapiramidais semelhantes aos observados na doença de Parkinson, alterações hormonais, sonolência e outros efeitos neurológicos.

Antidepressivos tricíclicos

Os antidepressivos tricíclicos incluem medicamentos como Elavil e Triavil.

São utilizados no tratamento da depressão, de algumas perturbações da ansiedade, da dor neuropática e de outras doenças específicas.

Embora o risco de dependência seja reduzido, uma sobredosagem pode ser extremamente grave devido aos seus efeitos sobre o coração e o sistema nervoso.

Utilização terapêutica

A distinção entre tranquilizantes “maiores” e “menores” não está relacionada com a sua potência, mas sim com a sua classificação farmacológica e o tipo de utilização clínica.

Estes medicamentos são utilizados em diversas especialidades médicas, incluindo neurologia, psiquiatria, cardiologia, anestesiologia, odontologia, ginecologia, obstetrícia e outras áreas da medicina.

Alguns podem igualmente ser utilizados como parte do tratamento da abstinência do álcool e de outras substâncias, sempre sob rigorosa supervisão médica.

Dependendo da classe farmacológica, podem atuar como sedativos, ansiolíticos, anticonvulsivantes, relaxantes musculares ou hipnóticos.

Efeitos no organismo

Os tranquilizantes atuam sobre diferentes neurotransmissores do cérebro, reduzindo a atividade do sistema nervoso central.

Como consequência, diminuem a ansiedade, induzem relaxamento muscular, reduzem a tensão emocional e podem facilitar o sono.

Os seus efeitos podem igualmente provocar sonolência, diminuição da capacidade de concentração, alterações da memória, lentificação dos reflexos, dificuldades na coordenação motora e diminuição do estado de alerta.

A intensidade dos efeitos depende da substância utilizada, da dose administrada, da duração do tratamento, da idade e das características individuais de cada pessoa.

Dependência e síndrome de abstinência

O consumo prolongado pode provocar tolerância, levando à necessidade de doses cada vez maiores para obter o mesmo efeito.

Pode igualmente desenvolver-se dependência física e psicológica, sobretudo com benzodiazepinas e barbitúricos.

A interrupção abrupta do tratamento pode originar síndrome de abstinência, cujos sintomas incluem ansiedade intensa, insónia, irritabilidade, tremores, náuseas, vómitos, sudação, alterações da frequência cardíaca, dificuldade de concentração e, nos casos mais graves, convulsões.

Por esse motivo, a suspensão destes medicamentos deve ser feita de forma gradual e sempre com acompanhamento médico.

Interações perigosas

Os tranquilizantes podem tornar-se extremamente perigosos quando combinados com álcool, opiáceos, barbitúricos ou outros depressores do sistema nervoso central.

Estas associações aumentam significativamente o risco de depressão respiratória, perda de consciência, coma e morte.

Gravidez e amamentação

Alguns tranquilizantes atravessam a placenta e podem afetar o desenvolvimento do feto, pelo que a sua utilização durante a gravidez apenas deve ocorrer quando os benefícios superam claramente os riscos e sempre sob orientação médica.

Um dos casos históricos mais conhecidos é o da talidomida, inicialmente utilizada como sedativo e antiemético para grávidas, que provocou milhares de casos de malformações congénitas graves durante as décadas de 1950 e 1960.

Muitos destes medicamentos também passam para o leite materno, sendo necessária uma avaliação médica antes da sua utilização durante a amamentação.

Efeitos secundários

Os efeitos secundários mais frequentes incluem:

  • Sonolência;
  • Apatia;
  • Diminuição da pressão arterial;
  • Alterações da visão;
  • Confusão;
  • Tonturas;
  • Fraqueza muscular;
  • Dores de cabeça;
  • Alterações gastrointestinais;
  • Diminuição da coordenação motora;
  • Alterações menstruais em alguns casos.

Embora menos frequente, algumas pessoas podem apresentar uma reação paradoxal, caracterizada por agitação, ansiedade, irritabilidade, insónia, agressividade e episódios de raiva.

Em situações de sobredosagem podem ocorrer perda da coordenação motora, depressão respiratória, coma, convulsões e morte, sobretudo quando existe consumo simultâneo de álcool ou de outras substâncias depressoras do sistema nervoso central.

Inalantes

Drogas inalantes

A categoria das drogas inalantes engloba diversas substâncias químicas voláteis, sendo três das mais conhecidas o tolueno, o éter dietílico e o clorofórmio.

Tolueno

O tolueno é um solvente orgânico presente em inúmeros produtos industriais e domésticos, como colas de contacto, colas para aeromodelismo, combustível para isqueiros, tintas, gasolina, alguns aerossóis, vernizes, esmaltes de unhas e produtos de limpeza.

A inalação dos vapores libertados por estes produtos pode provocar efeitos semelhantes aos da intoxicação alcoólica e, em doses elevadas, originar alterações da perceção e alucinações.

Os sintomas mais frequentes incluem euforia, inquietação, confusão, desorientação, excitação e perda da coordenação motora.

A exposição repetida pode provocar tonturas, instabilidade ao caminhar, alterações da perceção das cores, distorções da noção de tempo e espaço e uma sensação exagerada de poder ou invulnerabilidade.

Em situações de intoxicação grave podem surgir náuseas, vómitos, fadiga, fraqueza muscular, dores abdominais, tremores, ansiedade intensa, sentimentos de medo, isolamento, culpa, alterações neurológicas, perda de consciência e, nos casos mais graves, coma.

Os efeitos do tolueno resultam da sua ação depressora sobre o sistema nervoso central.

O consumo repetido pode provocar lesões permanentes no cérebro, danos no fígado, rins e sistema respiratório, alterações da medula óssea, lesões nas mucosas nasais, perda de visão e perturbações do comportamento, incluindo episódios de agressividade.

O uso frequente pode originar tolerância, levando à necessidade de consumir quantidades cada vez maiores para obter os mesmos efeitos.

Embora a dependência física seja pouco frequente, o consumo continuado pode provocar uma forte dependência psicológica. A interrupção precoce do consumo permite, em muitos casos, uma recuperação parcial ou significativa das funções afetadas, embora algumas lesões possam tornar-se permanentes.

Éter dietílico

O éter dietílico foi descoberto na Idade Média e é obtido através da desidratação do etanol com ácido sulfúrico.

Durante os séculos XVIII e XIX, o éter foi utilizado de forma recreativa em vários países europeus como alternativa às bebidas alcoólicas.

No Reino Unido, o seu consumo foi bastante popular até ao final do século XIX, diminuindo progressivamente quando o álcool voltou a tornar-se mais acessível.

Nos Estados Unidos, registou-se um aumento do consumo durante o período da Lei Seca (1920–1933), quando as bebidas alcoólicas eram ilegais.

Durante a Segunda Guerra Mundial, o éter voltou a ser utilizado em alguns países europeus devido à escassez de bebidas alcoólicas.

Em Portugal e no Brasil tornou-se conhecido através do lança-perfume, um produto utilizado sobretudo durante o Carnaval. O lança-perfume continha normalmente éter, cloreto de etilo e outras substâncias voláteis que produziam uma sensação rápida de euforia e desinibição quando inaladas.

O uso medicinal do éter iniciou-se em 1846, quando passou a ser utilizado como anestésico geral, marcando um importante avanço na cirurgia moderna.

Em doses moderadas, provoca depressão do sistema nervoso central e efeitos semelhantes aos da embriaguez.

O consumo excessivo pode provocar náuseas, irritação do estômago, dificuldade respiratória, perda de consciência e, em situações extremas, morte por depressão respiratória.

Clorofórmio

O clorofórmio foi descoberto de forma independente na Alemanha, França e Estados Unidos em 1831.

Trata-se de um líquido incolor e volátil que liberta vapores à temperatura ambiente.

Inicialmente, acreditava-se que poderia constituir uma alternativa mais segura ao álcool, uma vez que pequenas quantidades produziam euforia e desinibição sem provocar ressaca.

Em 1847 começou a ser utilizado como anestésico em cirurgias e partos, devido à sua elevada eficácia e rapidez de ação, sendo significativamente mais potente do que o éter.

Contudo, verificou-se posteriormente que o clorofórmio apresentava riscos importantes, incluindo arritmias cardíacas, lesões hepáticas, toxicidade para vários órgãos e possibilidade de morte súbita por depressão cardiovascular e respiratória.

Por esse motivo, foi sendo gradualmente substituído por anestésicos mais seguros.

Devido à sua elevada toxicidade, a ingestão ou inalação de grandes quantidades de clorofórmio pode ser fatal.

Cogumelos e Plantas Alucinógeno

Definição e histórico

A palavra alucinação significa, em linguagem médica, uma perceção sem objeto real. Ou seja, a pessoa percebe sons, imagens ou outras sensações sem que exista um estímulo externo correspondente. Assim, quando alguém ouve sons imaginários ou vê objetos inexistentes, está a experimentar uma alucinação auditiva ou visual.

As alucinações podem surgir espontaneamente em pessoas com determinadas perturbações psiquiátricas, sendo a esquizofrenia um dos exemplos mais conhecidos. Também podem ocorrer em pessoas sem doença mental após o consumo de determinadas substâncias conhecidas como alucinogénios, isto é, substâncias capazes de provocar alterações profundas da perceção.

Estas substâncias são igualmente designadas por psicotomiméticas, por reproduzirem alguns dos sintomas característicos das psicoses, nomeadamente as alucinações. Alguns autores utilizam ainda o termo psicadélicas, palavra que significa “expansão da mente”. Contudo, esta designação é discutível, uma vez que as alucinações e os delírios não representam um aumento das capacidades mentais, mas sim alterações do funcionamento normal do cérebro.

Muitos alucinogénios são de origem natural, sobretudo provenientes de plantas e fungos. Desde tempos antigos, diversas culturas atribuíram-lhes um significado espiritual ou religioso, considerando-os “plantas sagradas” capazes de facilitar o contacto com entidades divinas ou com o mundo espiritual. Ainda hoje, algumas comunidades indígenas utilizam estas substâncias em cerimónias religiosas tradicionais.

Com o avanço da ciência, foram sintetizados diversos alucinogénios em laboratório. Entre os mais conhecidos destaca-se o LSD-25, considerado o exemplo mais representativo dos alucinogénios sintéticos.

Existem ainda substâncias que atuam quase exclusivamente sobre o cérebro, provocando alterações da perceção com reduzidos efeitos sobre o restante organismo. Estas são frequentemente classificadas como alucinogénios primários. O THC (tetrahidrocanabinol), principal composto psicoativo da canábis, é por vezes incluído nesta categoria, embora os seus efeitos sejam diferentes dos alucinogénios clássicos. Existem igualmente outras substâncias que afetam o cérebro e provocam alterações da perceção, sendo por vezes classificadas como alucinogénios secundários.

Os vegetais alucinogénios

Cogumelos (Psilocybe mexicana)

O consumo de cogumelos alucinogénios tornou-se conhecido no México, onde já era utilizado por povos indígenas muitos séculos antes da chegada dos europeus. Algumas comunidades continuam a utilizá-los em cerimónias religiosas conduzidas por xamãs.

A principal substância ativa destes cogumelos é a psilocibina, responsável pelos seus efeitos alucinogénios.

Jurema (Mimosa hostilis)

A Jurema (Mimosa hostilis), atualmente conhecida como Mimosa tenuiflora, é utilizada na preparação de uma bebida tradicional designada por vinho de Jurema.

Esta bebida possui importância cultural e religiosa em algumas tradições indígenas e afro-brasileiras. Os seus efeitos são descritos por José de Alencar no romance Iracema.

A planta contém dimetiltriptamina (DMT), uma potente substância alucinogénia responsável pelos seus principais efeitos.

Peyote (Lophophora williamsii)

O peyote é um pequeno cato utilizado há muitos séculos por vários povos indígenas da América do Norte e da América Central em cerimónias religiosas.

A substância ativa é a mescalina, um dos alucinogénios naturais mais conhecidos.

Ainda hoje, o peyote pode ser utilizado legalmente em determinados rituais religiosos autorizados da Native American Church, nos Estados Unidos.

Caapi e Chacrona

As plantas Banisteriopsis caapi e Psychotria viridis (conhecida como chacrona) são utilizadas em conjunto na preparação da bebida conhecida como ayahuasca.

Esta bebida é utilizada em cerimónias religiosas como o Santo Daime, a União do Vegetal e outras tradições espirituais.

O nome “ayahuasca” provém da língua quíchua e significa aproximadamente “cipó dos espíritos” ou “cipó da alma”.

Durante os rituais podem ocorrer intensas alterações da perceção, frequentemente interpretadas pelos participantes como experiências espirituais.

Beladona (Atropa belladonna)

A beladona é uma planta originária da Europa rica em atropina, um alcaloide com forte ação sobre o sistema nervoso.

Os seus frutos podem parecer apetecíveis, representando um risco significativo de intoxicação, sobretudo em crianças.

Outra planta relacionada, Hyoscyamus niger (meimendro-negro), contém elevadas concentrações de escopolamina.

Estramónio (Datura stramonium)

O estramónio é uma planta originária da América do Norte.

Todas as suas partes contêm quantidades significativas de atropina, escopolamina e outros alcaloides tropânicos altamente tóxicos.

Diversos povos indígenas utilizaram espécies do género Datura em rituais religiosos.

Um episódio histórico ocorrido em Jamestown, na Virgínia, deu origem ao nome popular inglês Jimson weed, depois de soldados terem ingerido acidentalmente a planta e permanecido desorientados durante vários dias.

Noz-moscada

A noz-moscada contém compostos como a miristicina e a elemicina, substâncias com propriedades psicoativas quando ingeridas em grandes quantidades.

As suas estruturas químicas apresentam algumas semelhanças com as da mescalina, embora os seus efeitos sejam bastante diferentes e muito menos previsíveis.

Morning Glory (Ipomoea spp.)

As plantas conhecidas como Morning Glory produzem sementes ricas em compostos psicoativos, sobretudo derivados do ácido lisérgico.

Algumas variedades, como a Heavenly Blue, são conhecidas pelo seu potencial alucinogénio.

Algumas destas espécies sintetizam igualmente pequenas quantidades de DMT.

Efeitos no cérebro

Os alucinogénios provocam alterações profundas da perceção, podendo induzir alucinações, delírios e alterações emocionais intensas.

Os seus efeitos variam consideravelmente de pessoa para pessoa e dependem de fatores como a personalidade, o estado emocional, as expectativas, a dose utilizada, o ambiente e a presença de outras pessoas.

As experiências podem ser agradáveis, conhecidas popularmente como “boa viagem”, caracterizadas por sensações de bem-estar, intensificação das cores, alterações dos sons e perceções visuais incomuns.

Por outro lado, podem também ocorrer experiências extremamente desagradáveis, designadas por “má viagem”, marcadas por ansiedade intensa, medo, sensação de perda de controlo, alterações da perceção corporal e alucinações perturbadoras.

Em muitos contextos religiosos tradicionais, existe um guia espiritual ou responsável pela cerimónia que acompanha os participantes e procura proporcionar um ambiente seguro durante a experiência.

Efeitos no restante organismo

Os efeitos físicos dos alucinogénios costumam ser menos intensos do que os efeitos psicológicos.

Podem surgir dilatação das pupilas, transpiração excessiva, aumento da frequência cardíaca (taquicardia), náuseas e vómitos, sendo estes últimos particularmente frequentes após a ingestão de ayahuasca.

Aspetos gerais

A maioria dos alucinogénios clássicos provoca pouca ou nenhuma dependência física e raramente origina síndrome de abstinência após a interrupção do consumo.

Também o desenvolvimento de tolerância varia conforme a substância utilizada, embora algumas delas possam provocar tolerância temporária quando consumidas repetidamente em intervalos curtos.

Um dos principais riscos associados ao consumo destas substâncias é a possibilidade de desencadear episódios de pânico, delírios persecutórios, delírios de grandeza ou comportamentos perigosos, colocando em risco a própria pessoa e terceiros.

Em indivíduos predispostos, os alucinogénios podem ainda precipitar ou agravar perturbações psiquiátricas, motivo pelo qual o seu consumo representa um risco significativo para a saúde mental.

Ópio

O ópio é a única droga que esteve na origem declarada de uma guerra. No século XVII, a British East India Company produzia ópio na Índia e vendia-o em grandes quantidades à China. Contudo, em 1800, o imperador Ch’ung Ch’en proibiu o consumo da droga, que se espalhava pelo território chinês como uma verdadeira epidemia.

Apesar da proibição, o contrabando continuou. Em 1831, as vendas de ópio em Cantão atingiam um valor equivalente a cerca de 11 milhões de dólares, enquanto o comércio legal daquele importante porto chinês não ultrapassava os sete milhões.

A insistência do governo chinês em combater o consumo e o comércio da droga levou a um conflito com o Reino Unido, conhecido como a Guerra do Ópio. O conflito teve início em março de 1839, durou quase três anos e terminou com a vitória britânica. Como consequência, a China foi obrigada a permitir novamente a importação de ópio, a pagar uma indemnização pelo ópio confiscado e destruído e a ceder Hong Kong ao Reino Unido. No final do século XIX, estima-se que uma parte significativa da população masculina adulta chinesa fosse dependente da droga.

O ópio é uma das substâncias com maior potencial de dependência. É produzido a partir da resina extraída das cápsulas da papoila (Papaver somniferum), uma planta originária da Ásia Menor e cultivada em países como a Turquia, Irão, Índia, China, Líbano, Grécia e Bulgária, bem como na região do chamado Triângulo Dourado, que abrange Myanmar, Laos e Tailândia.

A produção do ópio inicia-se com a recolha de um líquido leitoso das cápsulas da papoila. Depois de seco, este líquido transforma-se numa pasta acastanhada que é posteriormente fervida, dando origem ao ópio. O seu processamento posterior permite obter substâncias como a morfina, a codeína, a heroína e outros opiáceos.

No mercado ilegal, o ópio é comercializado sob a forma de barras, pó, cápsulas ou comprimidos.

O consumo pode ser efetuado por diversas vias, incluindo a inalação, a ingestão, a preparação em chá ou, no caso de alguns comprimidos, a administração sublingual. Importa referir que, historicamente, o ópio também foi amplamente consumido através do fumo em cachimbos próprios para esse efeito.

Uma dose moderada provoca uma sensação de relaxamento profundo e bem-estar, podendo induzir um estado semelhante ao sonho. Os seus efeitos prolongam-se normalmente entre três e quatro horas.

Nas primeiras utilizações podem surgir náuseas, vómitos, ansiedade, tonturas e dificuldade respiratória, sintomas que tendem a diminuir com o consumo repetido.

O consumidor habitual torna-se frequentemente apático, letárgico e com menor capacidade de iniciativa. Tal como acontece com outros opiáceos, o organismo desenvolve tolerância, sendo necessárias doses cada vez maiores para produzir os mesmos efeitos.

O aumento da dose provoca sonolência, diminuição da frequência respiratória e da pressão arterial. Em casos de sobredosagem, podem ocorrer náuseas, vómitos, contração acentuada das pupilas, perda de consciência, coma e morte por depressão respiratória.

O risco de sobredosagem aumenta significativamente quando o ópio é consumido em simultâneo com álcool, benzodiazepinas, barbitúricos ou outros depressores do sistema nervoso central.

O ópio provoca uma forte dependência física e psicológica. A interrupção súbita do consumo pode desencadear uma síndrome de abstinência intensa, que raramente é fatal em pessoas saudáveis, mas pode exigir acompanhamento médico.

Os especialistas consideram que um consumo ocasional dificilmente provoca dependência imediata, embora não exista um ponto exato a partir do qual uma pessoa se torne dependente.

Depois de instalada a dependência, o consumidor deixa de procurar a droga pelo prazer que proporciona, passando a utilizá-la sobretudo para evitar os sintomas da abstinência, que podem durar entre um e dez dias.

Esses sintomas incluem arrepios, tremores, diarreia, crises de choro, náuseas, transpiração intensa, vómitos, cólicas abdominais e musculares, perda de apetite, insónia, ansiedade e dores muito intensas.

Estudos científicos demonstram que o consumo prolongado de opiáceos provoca alterações no funcionamento do cérebro, aumentando o risco de recaída mesmo após longos períodos de abstinência.

O ópio contém diversos alcaloides, sendo a morfina o principal responsável pelos seus efeitos analgésicos e narcóticos. Outros alcaloides presentes na planta possuem igualmente propriedades farmacológicas relevantes.

Durante milhares de anos, o ópio foi utilizado como sedativo, analgésico e tranquilizante, tendo sido também administrado no tratamento de doenças como a disenteria, diarreia, gota, tétano e outras patologias. Em épocas passadas, chegou ainda a ser prescrito para perturbações psiquiátricas e até para o tratamento do alcoolismo.

No século XIX, muitos alcoólicos passaram a consumir preparados à base de opiáceos como forma de abandonar o álcool. No entanto, na maioria dos casos, apenas substituíam uma dependência por outra.