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Consumo desce na escola

Drogas em geral, Geral, Prevenção, Saúde, Sociedade, Toxicodependência Abril 27th, 2008

Heroína continua a manchar os números da droga.

O consumo de drogas está a diminuir entre os mais jovens, apesar do aumento registado relativamente à população em geral. Um aumento que o Instituto da Droga e da Toxicodependência (IDT) atribui a um efeito estatístico que acaba por cobrir a tendência de estabilização do fenómeno em Portugal.

Estas conclusões derivam do Inquérito em Meio Escolar 2006 e do Inquérito Nacional ao Consumo de Substâncias Psicoactivas na População Portuguesa 2007, ontem apresentado em Évora pelo presidente do IDT, João Goulão, e pelo secretário de Estado da Saúde Manuel Pizarro.

Comparando com os dados do último inquérito nacional, em 2001, a percentagem de pessoas que já consumiu droga pelo menos uma vez ao longo da vida subiu de 7,8% para 11,7%. Isto porque aqueles que, em 2001, tinham mais de 58 anos e revelavam um consumo zero – o que fazia descer a média de consumo – saíram do âmbito do inquérito. Trata-se de uma geração que, na sua juventude, não teve acesso a uma cultura de consumo de drogas. Em contrapartida, os que na altura tinham entre nove e 14 anos “e já correspondem a uma geração com mais probabilidade de acesso” a essa cultura entraram para a amostra e fizeram subir a média.

Estes números não se reflectem, contudo, nos consumos regulares e recentes, esses em estabilização para quase todas as substâncias, tanto na escola como na população em geral.

No entanto, os inquéritos revelam uma diminuição do consumo entre os mais novos em meio escolar, a prevalência (pelo menos um consumo ao longo da vida) desceu de 14% para 11% no 3º ciclo do básico e de 28% para 22% no secundário. Apenas subiu a experiência (mas não o consumo regular) com inalantes/solventes (cola e gasolina), provavelmente por serem “de fácil acesso”, analisa João Goulão. No que toca à população em geral, “há um decréscimo da prevalência do consumo de droga entre os 15 e os 19 anos”, contra um aumento “relevante” entre 20 e 24 anos – o tal grupo que junta os que eram mais novos em 2001.

São números que, para o IDT, apontam uma tendência que, a confirmar-se nos próximos anos, “significará que 2000-2001 pode ter sido o ponto de viragem na evolução do fenómeno do consumo de drogas, por corresponder à geração de jovens (então no grupo etário dos 15-24 anos e actualmente no grupo dos 20-34 anos) onde, até agora, foram encontradas as maiores percentagens de consumidores”.

Avaliando os consumos recentes ou regulares (últimos 12 meses e últimos 30 dias), são assumidos por 2,5% da população, exactamente como aconteceu em 2001. Subiu, contudo, o consumo regular da cocaína (0,1% para 0,3%) e da heroína (0,1% para 0,2%).

Portugal mantém-se ainda assim, nos valores de consumo mais baixos da Europa. Já a prevalência do uso de heroína em Portugal (que subiu de 0,7% para 1,1% da população assumindo que a experimentou pelo menos uma vez) continua a ser das mais elevadas na Europa. Apesar de reconhecer um padrão de consumo “exagerado”, Manuel Pizarro fez questão de desmontar o dado a melhoria do tratamento dos consumidores desta droga evitou infecções e mortes prematuras, uma sobrevivência que “aumenta o índice de prevalência”.

A cannabis continua à frente das substâncias consumidas – o seu uso pelo menos uma vez ao longo da vida subiu de 7,6% para 11,7% na população em geral (numa amostra de 15 mil inquiridos); no entanto, o consumo regular manteve-se nos 2,4% dos inquiridos.

* Com agência Lusa

Doenças psicológicas são influenciadas pela cultura e a sociedade

Drogas em geral, Geral, Prevenção, Saúde, Sociedade, Toxicodependência Abril 17th, 2008

Um número considerável de doenças de foro orgânico são influenciadas pelo meio e pelo estilo de vida. É o caso das patologias cardiovasculares. Da mesma maneira, muitos sofrimentos psicológicos estão relacionados com a sociedade, a cultura e a própria época histórica.

Sabe-se, por exemplo, que a depressão é sobretudo uma doença das sociedades industrializadas. Mesmo quando ela ocorre em sociedades mais tradicionais e afastadas dos grandes centros os sintomas apresentam-se diferentes, com manifestações mais físicas do que emocionais.

O mesmo se passa com a vulgar ansiedade. Enquanto que nos países industrializados as suas manifestações são mais psíquicas e intelectuais, nas regiões menos desenvolvidas e rurais os sintomas são de natureza mais somática (física) e comportamental.

Acontece que várias perturbações psicológicas que tanto afectam os cidadãos do chamado “primeiro mundo” – fortemente industrializado, urbanizado e competitivo – são praticamente desconhecidas entre os povos que habitam regiões subdesenvolvidas, onde a agricultura e a pastorícia constituem ainda as principais actividades económicas. A anorexia nervosa, o transtorno obsessivo-compulsivo e a doença bipolar (doença de tipo depressivo) estão entre as perturbações mentais praticamente desconhecidas das sociedades tradicionais.

A influência da cultura

A manifestação e o significado de muitas perturbações de índole psicológica diferem de cultura para cultura. A explicação reside no facto das chamadas “experiências de vida” – que variam não apenas de pessoa para pessoa mas também de sociedade para sociedade – serem fortemente influenciadas pela época histórica, a religião, as crenças, o contexto sócio-económico e o estilo de vida.

Entre outros factores a serem levados em conta está o meio familiar. Nas sociedades ocidentais predomina a família nuclear, com poucos filhos, uma separação nítida entre a vida privada e a vida pública e um menor peso da religião e da tradição. Desde muito novos, os habitantes dos grandes centros adoptam estilos de vida marcados pela competição, a conquista do sucesso e a posse de bens materiais.

Já as sociedades rurais estão imersas em tradições milenares onde as crenças religiosas têm um papel muito forte influenciando não apenas as decisões pessoais como as de natureza comunitária e política. As famílias são extensas, a escolaridade é baixa e os sentimentos de competitividade e de conquista de sucesso praticamente não existem.

Um exemplo muito interessante do papel que o meio e a cultura desempenham na forma como as doenças psicológicas se exprimem é o da esquizofrenia, uma perturbação mental que no Ocidente penaliza cerca de 1% da população. A esquizofrenia manifesta-se, entre muitos outros sintomas, através de alucinações, embotamento afectivo e ideias delirantes. Todavia, há geralmente diferenças de padrão conforme ela ocorra num indivíduo de uma cidade industrializada ou num habitante das sociedades tradicionais. Por exemplo, nos doentes esquizofrénicos das sociedade rurais os temas mais correntes das ideias delirantes são anomalias corporais e visões de antepassados e “espíritos”.

Muitas outras manifestações patológicas, associadas a enfermidades mentais, exprimem-se de forma distinta de cultura para cultura. È o caso de uma psicose paranóide típica dos índios Algonkians do Canadá que se manifesta através da crença e de medo intenso de se ser transformado em canibal devido a um espírito malígno mítico chamado “windigo” que se apodera do doente.

Outra manifestação patológica, tipicamente masculina, é a chamada “koro” que é frequente em muitas regiões do sudeste asiático. O “koro” é desencadeado pelo medo de que o pénis possa encolher, retrair-se para dentro do corpo e causar a morte da vítima. É uma forma tipicamente local de hipocondria.

Noutros casos, parecem misturar-se sintomas de diferentes patologias quando o problema é avaliado sob a perspectiva da medicina ocidental. Isto passa-se, por exemplo, com o que na Malásia é conhecido como “amok”. Consiste numa perturbação grave em que a vítima entra inicialmente num estado de recolhimento e tristeza profunda durante horas ou alguns dias. Segue-se depois uma fase de intensa agitação motora e agressividade que faz o doente correr como um louco destruindo tudo por onde passa, podendo, inclusivamente, matar pessoas. A crise termina quando o doente cai exausto. Geralmente, não se recorda do que lhe aconteceu.

Outras vezes, o imaginário e a crença misturam-se com a realidade. É o que se passa com o “tangolo-mango”, uma perturbação espiritual e psicológica pretensamente criada por feitiçaria e que se manifesta principalmente no nordeste brasileiro nas populações rurais. Expressa-se por um sentimento de indisposição súbita e incurável que pode conduzir à morte da vítima por definhamento gradual. O “tangolo-mango” terá sido levado de África pelos primeiros escravos.

Emigração e problemas de adaptação

No mundo actual, à medida que se esbatem as barreiras culturais entre os povos, as patologias mentais associadas ao meio, à educação e ao estilo de vida tendem a exprimir-se de forma cada vez mais semelhante. Por outro lado, sempre que os habitantes das sociedades rurais se transferem para as cidades e os grandes centros industriais aumenta o número de perturbações devidas à dificuldade de adaptação aos novos estilos e ritmos de vida. O chamado “brain fag”, por exemplo, que se caracteriza por cansaço crónico, dores de cabeça e problemas cognitivos vários (dificuldades de concentração, problemas de memória, etc.) afecta milhões de habitantes da África que habitam os extensos bairros de lata das grandes cidades.

Por sua vez, os habitantes das grandes cidades da Ásia e do Ocidente, enfrentam cada vez mais perturbações de índole psicológica e comportamental devidas ao stress, à fadiga, à competitividade extrema, ao excesso de estimulação, às drogas, à solidão urbana, aos acidentes e a várias doenças degenerativas que podem afectar o cérebro. O estilo de vida complexo e agitado das sociedades industrializadas desafia a estabilidade mental que é condição indispensável de saúde.

Texto: Nelson S. Lima

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