Tabaco
Efeitos, riscos para a saúde e dependência da nicotina
O tabaco continua a ser uma das principais causas evitáveis de doença e morte em todo o mundo. Apesar da redução do número de fumadores registada em muitos países nas últimas décadas, milhões de pessoas continuam a consumir produtos do tabaco diariamente, expondo-se a um elevado risco de desenvolver doenças cardiovasculares, respiratórias e vários tipos de cancro.
Em Portugal, o tabagismo representa um importante problema de saúde pública, sendo responsável por milhares de mortes todos os anos. Para além dos efeitos sobre os fumadores, o fumo do tabaco afeta também os não fumadores através do tabagismo passivo, aumentando igualmente o risco de doença.
História do tabaco
O tabaco é obtido principalmente a partir da planta Nicotiana tabacum, pertencente à família das Solanáceas. A sua utilização começou há milhares de anos entre os povos indígenas das Américas, que o consumiam durante cerimónias religiosas, espirituais e medicinais.
Muito antes da chegada dos europeus ao continente americano, diversas civilizações utilizavam folhas de tabaco em rituais destinados à cura, meditação, proteção espiritual e celebrações comunitárias.
Durante o século XVI, o tabaco foi introduzido na Europa por exploradores e diplomatas. Um dos nomes mais associados à sua divulgação é o do diplomata francês Jean Nicot, que promoveu a planta na corte francesa e acreditava nas suas propriedades medicinais. O seu apelido deu origem ao nome da principal substância ativa do tabaco: nicotina.
Inicialmente, o tabaco era consumido sobretudo em cachimbos, rapé e charutos. Mais tarde, com a industrialização do fabrico de cigarros durante o século XIX e, sobretudo, após a Primeira Guerra Mundial, o consumo aumentou rapidamente em todo o mundo.
Ao longo do século XX, campanhas publicitárias associaram o cigarro a imagens de sucesso, elegância, liberdade, juventude e poder económico. Muitos anúncios utilizavam médicos, atletas e figuras públicas para promover o consumo, numa época em que os seus efeitos nocivos ainda não eram totalmente conhecidos pela população.
A partir da década de 1950 começaram a surgir estudos científicos que demonstraram claramente a relação entre o tabagismo e o cancro do pulmão. Nas décadas seguintes confirmou-se igualmente a associação do consumo de tabaco a dezenas de outras doenças graves.
Hoje, o tabaco continua a ser uma das substâncias psicoativas mais consumidas no mundo, embora a legislação tenha evoluído significativamente, impondo restrições à publicidade, ao consumo em espaços públicos fechados e à venda a menores.
O que é a nicotina?
A nicotina é um alcaloide naturalmente presente nas folhas do tabaco. É a principal responsável pela dependência provocada pelos cigarros e outros produtos derivados do tabaco.
Quando uma pessoa fuma, a nicotina é rapidamente absorvida pelos pulmões e entra na corrente sanguínea, atingindo o cérebro em aproximadamente 10 segundos.
No cérebro, a nicotina liga-se aos chamados recetores nicotínicos da acetilcolina, estimulando a libertação de diversos neurotransmissores, especialmente dopamina, responsável pela sensação de prazer e recompensa.
É precisamente este mecanismo que explica porque razão o tabaco provoca dependência com tanta facilidade.
Embora a nicotina seja considerada um estimulante do sistema nervoso central, muitos fumadores referem sentir relaxamento após fumar um cigarro. Na realidade, essa sensação resulta sobretudo do alívio temporário dos sintomas iniciais da abstinência, que começam a surgir poucas horas após o último cigarro.
Como se desenvolve a dependência?
O consumo repetido leva o cérebro a adaptar-se à presença constante da nicotina.
Com o passar do tempo desenvolve-se:
- tolerância, sendo necessário fumar mais cigarros para obter o mesmo efeito;
- dependência física;
- dependência psicológica.
Quando o fumador deixa de consumir tabaco, os níveis de nicotina diminuem rapidamente, surgindo sintomas como:
- desejo intenso de fumar (fissura);
- ansiedade;
- irritabilidade;
- dificuldade de concentração;
- insónia;
- aumento do apetite;
- alterações do humor.
Estes sintomas são temporários e constituem uma das principais dificuldades para quem pretende deixar de fumar.
O consumo de tabaco em Portugal
Segundo dados da Direção-Geral da Saúde (DGS) e do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD), o tabagismo continua a representar uma das principais causas de morte evitável em Portugal.
Apesar da diminuição gradual da prevalência de fumadores nas últimas décadas, continuam a existir centenas de milhares de consumidores diários, sendo o consumo particularmente preocupante entre adultos jovens.
Em Portugal encontram-se disponíveis programas de apoio à cessação tabágica através do Serviço Nacional de Saúde (SNS), incluindo consultas especializadas, aconselhamento e medicamentos destinados a aumentar as probabilidades de sucesso na interrupção do consumo.
Efeitos do tabaco no cérebro e no organismo
Efeitos da nicotina no cérebro
A nicotina atua diretamente sobre o sistema nervoso central. Após ser inalada, atravessa rapidamente a barreira hematoencefálica e liga-se aos recetores nicotínicos da acetilcolina existentes no cérebro.
Esta ligação provoca a libertação de vários neurotransmissores, entre os quais:
- Dopamina – associada à sensação de prazer, recompensa e dependência;
- Noradrenalina – aumenta o estado de alerta e a concentração;
- Serotonina – influencia o humor e o bem-estar;
- Acetilcolina – melhora temporariamente a atenção e a memória;
- Glutamato – participa nos processos de aprendizagem e memória.
É por esta razão que muitos fumadores referem sentir uma melhoria temporária da concentração, uma sensação de relaxamento ou uma redução da ansiedade após fumar um cigarro.
Contudo, estes efeitos são de curta duração. À medida que os níveis de nicotina diminuem, o cérebro começa a exigir uma nova dose, dando origem ao chamado craving (desejo intenso de fumar).
Dependência da nicotina
A nicotina é considerada uma das substâncias com maior capacidade para provocar dependência.
Com o consumo continuado, o cérebro adapta-se à presença da nicotina, tornando-se progressivamente menos sensível aos seus efeitos.
Como consequência:
- aumenta a tolerância;
- cresce a necessidade de fumar mais frequentemente;
- desenvolve-se dependência física e psicológica.
Esta dependência explica porque muitas pessoas têm dificuldade em deixar de fumar, mesmo conhecendo os riscos associados ao tabaco.
Síndrome de abstinência
Quando uma pessoa deixa de fumar, a concentração de nicotina no organismo diminui rapidamente.
Nas primeiras horas podem surgir sintomas como:
- desejo intenso de fumar;
- irritabilidade;
- ansiedade;
- nervosismo;
- dificuldade de concentração;
- dores de cabeça;
- fadiga;
- aumento do apetite;
- alterações do sono;
- humor deprimido.
Os sintomas costumam atingir o pico entre as primeiras 24 e 72 horas e diminuem progressivamente ao longo das semanas seguintes.
O que contém o fumo do tabaco?
Ao contrário do que muitas pessoas pensam, o principal problema do cigarro não é apenas a nicotina.
O fumo do tabaco contém mais de 7.000 substâncias químicas, das quais centenas são tóxicas e pelo menos 70 são reconhecidamente cancerígenas.
Entre as mais importantes encontram-se:
- Nicotina;
- Monóxido de carbono;
- Alcatrão;
- Benzeno;
- Formaldeído;
- Arsénio;
- Cádmio;
- Chumbo;
- Amoníaco;
- Cianeto de hidrogénio.
Muitas destas substâncias são produzidas durante a combustão do tabaco e afetam praticamente todos os órgãos do corpo humano.
Efeitos no sistema cardiovascular
Fumar aumenta significativamente o esforço do coração e dos vasos sanguíneos.
A nicotina provoca:
- aumento da frequência cardíaca;
- aumento da pressão arterial;
- contração dos vasos sanguíneos;
- diminuição do aporte de oxigénio aos tecidos.
Ao mesmo tempo, o monóxido de carbono reduz a capacidade do sangue para transportar oxigénio.
Com o passar dos anos, estes efeitos favorecem o desenvolvimento de:
- aterosclerose;
- doença coronária;
- enfarte agudo do miocárdio;
- acidente vascular cerebral (AVC);
- doença arterial periférica;
- aneurismas.
O risco cardiovascular diminui significativamente após deixar de fumar, independentemente da idade.
Efeitos no sistema respiratório
O sistema respiratório é um dos mais afetados pelo consumo de tabaco.
O fumo destrói progressivamente os cílios presentes nas vias respiratórias, responsáveis pela eliminação de partículas, microrganismos e secreções.
Como consequência, aumentam:
- tosse persistente;
- produção de expetoração;
- infeções respiratórias;
- falta de ar;
- diminuição da capacidade pulmonar.
O consumo prolongado está diretamente relacionado com doenças como:
- bronquite crónica;
- enfisema pulmonar;
- Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica (DPOC).
A DPOC é atualmente uma das principais causas de incapacidade e mortalidade em todo o mundo.
Tabaco e cancro
O tabaco é o principal fator de risco evitável para o desenvolvimento de cancro.
Embora seja frequentemente associado ao cancro do pulmão, pode contribuir para o aparecimento de muitos outros tipos de cancro, incluindo:
- boca;
- língua;
- garganta;
- laringe;
- esófago;
- estômago;
- pâncreas;
- fígado;
- rim;
- bexiga;
- colo do útero;
- cólon e reto.
Estima-se que cerca de 80 a 90% dos casos de cancro do pulmão estejam relacionados com o consumo de tabaco.
Outros efeitos do tabagismo
O consumo de tabaco também está associado a:
- envelhecimento precoce da pele;
- aparecimento de rugas;
- manchas nos dentes;
- mau hálito;
- diminuição do olfato e do paladar;
- cicatrização mais lenta;
- maior risco de osteoporose;
- disfunção erétil;
- diminuição da fertilidade masculina e feminina;
- agravamento da diabetes;
- maior risco de cataratas e degenerescência macular relacionada com a idade.
Quanto maior for a duração do consumo e o número de cigarros fumados diariamente, maior será o risco de desenvolver estas doenças.
Tabaco e gravidez
O consumo de tabaco durante a gravidez representa um risco significativo para a saúde da mãe e do bebé. A nicotina, o monóxido de carbono e muitas outras substâncias tóxicas presentes no fumo atravessam a placenta, reduzindo o fornecimento de oxigénio e nutrientes ao feto.
Fumar durante a gravidez aumenta o risco de:
- aborto espontâneo;
- gravidez ectópica;
- parto prematuro;
- baixo peso à nascença;
- restrição do crescimento fetal;
- descolamento prematuro da placenta;
- morte fetal;
- síndrome da morte súbita do lactente (SMSL).
Após o nascimento, os bebés expostos ao tabaco apresentam maior probabilidade de desenvolver infeções respiratórias, asma e problemas no desenvolvimento pulmonar.
Também durante a amamentação a nicotina passa para o leite materno, podendo provocar irritabilidade, alterações do sono e redução da produção de leite.
Tabagismo passivo
Os efeitos do tabaco não afetam apenas quem fuma.
O chamado tabagismo passivo ocorre quando uma pessoa inala o fumo libertado por fumadores ou proveniente da combustão do cigarro.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), não existe um nível seguro de exposição ao fumo do tabaco.
A exposição passiva aumenta o risco de:
- cancro do pulmão;
- doença coronária;
- acidente vascular cerebral;
- crises de asma;
- bronquite;
- pneumonia.
Nas crianças, o tabagismo passivo está associado a:
- infeções respiratórias recorrentes;
- otites;
- agravamento da asma;
- maior risco de síndrome da morte súbita do lactente.
Por esse motivo, a legislação portuguesa proíbe fumar em grande parte dos espaços públicos fechados e restringe cada vez mais os locais onde é permitido fumar.
Cigarros eletrónicos (vapes)
Os cigarros eletrónicos surgiram como uma alternativa aos cigarros tradicionais.
Ao contrário do cigarro convencional, não existe combustão do tabaco. Em vez disso, um líquido é aquecido, formando um aerossol inalado pelo utilizador.
Este líquido pode conter:
- nicotina;
- propilenoglicol;
- glicerina vegetal;
- aromatizantes;
- outras substâncias químicas.
Embora emitam menos substâncias tóxicas do que o cigarro convencional, os cigarros eletrónicos não são isentos de riscos.
A utilização prolongada continua a ser objeto de investigação científica e existem evidências de que podem provocar irritação das vias respiratórias, dependência da nicotina e exposição a compostos potencialmente nocivos.
Por este motivo, a Direção-Geral da Saúde não recomenda a sua utilização por não fumadores, crianças, adolescentes ou mulheres grávidas.
Tabaco aquecido
Os produtos de tabaco aquecido utilizam tabaco verdadeiro que é aquecido a temperaturas inferiores às da combustão.
Embora produzam menores quantidades de algumas substâncias tóxicas relativamente ao cigarro convencional, continuam a libertar nicotina e outros compostos prejudiciais para a saúde.
Atualmente não existe evidência científica suficiente para considerar estes produtos seguros.
Como deixar de fumar
Deixar de fumar constitui uma das decisões mais importantes para melhorar a saúde.
Os benefícios começam praticamente de imediato.
Após deixar de fumar:
20 minutos
- A pressão arterial e a frequência cardíaca começam a diminuir.
12 horas
- Os níveis de monóxido de carbono no sangue regressam ao normal.
2 a 12 semanas
- Melhora a circulação sanguínea.
- A função pulmonar começa a recuperar.
1 ano
- O risco de doença cardíaca diminui para cerca de metade.
5 anos
- Reduz significativamente o risco de AVC.
10 anos
- O risco de cancro do pulmão é cerca de metade do de um fumador.
15 anos
- O risco de doença cardiovascular aproxima-se do de uma pessoa que nunca fumou.
Tratamento da dependência
A dependência da nicotina é uma doença crónica, mas pode ser tratada com sucesso.
Em Portugal, o Serviço Nacional de Saúde disponibiliza consultas de cessação tabágica em diversos centros de saúde e hospitais.
O tratamento pode incluir:
- aconselhamento individual;
- apoio psicológico;
- terapia comportamental;
- substituição de nicotina (adesivos, pastilhas elásticas, comprimidos ou sprays);
- medicamentos sujeitos a receita médica, quando indicados.
A combinação entre acompanhamento especializado e tratamento farmacológico aumenta significativamente a probabilidade de deixar de fumar com sucesso.
Situação em Portugal
O combate ao tabagismo constitui uma prioridade de saúde pública em Portugal.
Diversas entidades desenvolvem programas de prevenção, sensibilização e apoio aos fumadores, entre as quais:
- Direção-Geral da Saúde (DGS);
- Serviço Nacional de Saúde (SNS);
- Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD);
- INFARMED – Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde.
Portugal implementou igualmente medidas como:
- proibição da publicidade ao tabaco;
- embalagens com advertências de saúde e imagens;
- aumento da tributação sobre os produtos do tabaco;
- restrições ao consumo em espaços públicos fechados;
- programas de prevenção dirigidos aos jovens.
Estas medidas contribuíram para uma redução gradual do número de fumadores, embora o tabagismo continue a representar um importante desafio para a saúde pública.
Conclusão
O tabaco continua a ser um dos principais fatores de risco evitáveis para o desenvolvimento de doenças graves e morte prematura.
Embora a nicotina seja a substância responsável pela dependência, são sobretudo as milhares de substâncias tóxicas produzidas durante a combustão do tabaco que provocam os maiores danos no organismo.
Deixar de fumar traz benefícios em qualquer idade. Mesmo após muitos anos de consumo, o risco de doença cardiovascular, doença respiratória e vários tipos de cancro diminui progressivamente após a cessação tabágica.
Se pretende deixar de fumar, procure aconselhamento junto do seu médico de família ou de uma Consulta de Cessação Tabágica do Serviço Nacional de Saúde. Com apoio adequado, é possível ultrapassar a dependência e melhorar significativamente a qualidade e a esperança de vida.
Referências oficiais (Portugal)
- Direção-Geral da Saúde (DGS) – Programa Nacional para a Prevenção e Controlo do Tabagismo.
- Serviço Nacional de Saúde (SNS) – Consultas de Cessação Tabágica.
- Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD).
- INFARMED – Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde.
- Lei n.º 37/2007, de 14 de agosto (Lei do Tabaco), na sua redação atual.